segunda-feira, 5 de junho de 2017

O único amor contra o terror

Aconteceu ontem 4, no estádio Old Trafford, em Manchester, Inglaterra, o show One Love Manchester, em homenagem às vítimas do atentado terrorista ocorrido no show da cantora Ariana Grande. O show, que reuniu vários artistas europeus e americanos, foi realizado menos de 24h depois de um novo ataque, ocorrido em Londres no sábado 3. Durante sua apresentação, a artista falou ao público "o amor e a união que vocês estão lançando aqui são o remédio que o mundo precisa". Parece que ainda não caiu a ficha das pessoas sobre o que realmente acontece no mundo.

O termo "One Love", que significa "um amor" é uma espécie de convite direto para que todos se amem como se fossem um só. O mesmo amor. Uma unidade. Afinal, como diria Leão XIII, fazemos parte do mesmo "consórcio humano". De acordo com esses princípios, só teremos paz quando todos nós nos amarmos. Entretanto, o problema começa quando tentamos encontrar quais são os fundamentos dessa unidade, pois o secularismo moderno não é capaz de nos dar essa resposta.

Foi o Cristianismo que inseriu na história da humanidade o próprio conceito de "humanidade". Antes, não existia essa idéia de elo que faz de todos nós um só povo. Éramos vários povos, culturas e etnias distintas. Quase sempre envolvidas em guerras entre si. A humanidade passou a ser possível quando a religião nos revelou a visão de que todos nós podemos fazer parte de um mesmo espírito, de um mesmo corpo. Essa idéia abstrata de unidade, que inicialmente não passa de uma expressão simbólica tal como no discurso de Ariana Grande, ganhou contornos concretos na figura da Igreja Católica. O Espírito é esse elo que nos liga uns aos outros. Na Bíblia, São Paulo expressa a união de todos sob um mesmo espírito, em um mesmo corpo místico, na epístola aos Gálatas, aos Romanos e na primeira epístola aos Coríntios. Coincidentemente, no capítulo III de Gálatas e no capítulo XII dos demais dois livros. "Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus", escreve o apóstolo.

Não há como combater espírito em torno do terror Islâmico invocando expressões como "união e amor". Embora tenha sido fundada séculos depois do Cristianismo, a religião de Maomé também expressa bem esse princípio de unidade em um deus único. Embora isso se dê de forma distinta do Deus Uno e Trinitário do Catolicismo. Todavia, um terrorista que comete um atentado, onde ele próprio é entregue em sacrifício, faz isso porque ama Alá, ama sua religião, e faz isso de tal forma que é capaz de desprezar o outro, desprezar a si próprio e morrer pela sua causa.

O sacrifício feito por um terrorista é um sacrifício de amor. O amor a Alá é maior que sua própria vida. O terrorista se dá pela religião, pelo seu deus. Ele abre mão de sua família, seus amigos, sua casa, seus bens e até mesmo de si próprio pela jihad. Portanto, o único amor e a única união que tem forças para lutar contra uma religião é o de outra religião. Somente a Unidade em Cristo e em sua Igreja, em toda a sua Compaixão, Misericórdia e seu verdadeiro Amor, pode combater o terror islâmico.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Dez razões para frequentar a missa tradicional em Latim




















Por Peter Kwasniewski e Michael Foley. Tradução de Lourival Souza. Original aqui.

Dado que muitas vezes pode ser menos conveniente para alguém ou uma família assistir à missa tradicional em latim (não só por questões óbvias, como o lugar e o horário, mas também da falta de uma infraestrutura paroquial e as reações hostis que se pode obter de amigos, família e até mesmo do clero), vale definitivamente  lembrar-nos em primeiro lugar por que estamos fazendo isso. Se algo vale a pena, então vale a pena perseverar, mesmo as custas de sacrifícios.

Este artigo irá listar um número de razões pelas quais, apesar de todos os inconvenientes e (até mesmo das perseguições) que temos vivido ao longo dos anos, nós e nossas famílias amamos assistir à Missa Tradicional em latim. Expor essas razões irá, esperamos, incentivar os leitores em todos os lugares, a começar a frequentar o antiquior usus ou continuar frequentando, se estiver indeciso. Na verdade, é nossa convicção de que a sagrada liturgia que nos foi transmitida pela tradição, nunca foi mais importante na vida dos católicos. A “Igreja peregrina sobre a terra”, tal como falamos, continua a esquecer sua teologia, a diluir sua mensagem, a perder sua identidade e a sangrar seus membros. Ao preservar, estudar, seguir e amar a antiga liturgia, fazemos nossa parte para reforçar a autêntica doutrina, anunciar a salvação celeste, recuperar uma plena estatura e atrair novos crentes que estão à procura da pura verdade e de manifesta beleza. Ao entregar por este dom imenso, por sua vez, convidando para a missa muitos de nossos amigos e nossas famílias, estamos cumprindo nossa vocação como seguidores dos Apóstolos.

1. Será educado da mesma maneira que a maioria de nossos santos foram. Se tomarmos uma estimativa conservadora e considerarmos que a Missa Romana foi codificada no reinado do Papa São Gregório Magno (cerca de 600) e permaneceu intacta até 1970, estamos falando de quase 1400 anos da vida da Igreja - isso é a maioria da sua história. As orações, leituras e cantos que eles ouviram e meditaram serão os que você ouvirá também.

Esta é a Missa que São Gregório Magno herdou, desenvolveu e solidificou. Esta é a Missa que São Tomás de Aquino amorosamente celebrou, escreveu sobre e contribuiu (ele compôs o Próprio da Missa e o Ofício para a Festa de Corpus Christi). Esta é a Missa que São Luis IX, o cruzado rei da França, frequentava três vezes ao dia. Esta é a Missa que São Felipe Neri precisava se distrair antes de celebra-la porque ela facilmente o levava a um êxtase que durava horas. Esta é a missa que foi celebrada pela primeira vez sobre as costas da América por missionários espanhóis e franceses, e os mártires da América do Norte. Esta é a Missa que os sacerdotes celebraram secretamente na Inglaterra e na Irlanda durante os dias negros de perseguição. Esta é a missa pela qual o beato Miguel Pro arriscou sua vida ao celebrar antes de ser capturado e martirizado pelo governo mexicano. Esta é a missa que o Beato John Henry Newman disse que se pudesse celebraria em cada momento de sua vida. Esta é a missa que o padre Frederick Faber chamou de “a coisa mais linda deste lado do céu.” Esta é a Missa que o Padre Damião de Molokai celebrou com as mãos leprosas na igreja que ele havia construído e pintado. Esta é a missa durante a qual Santa Edith Stein, que morreu nas câmaras de gás de Auschwitz, ficou completamente extasiada. Esta é a Missa que grandes artistas como Evelyn Waugh, David Jones e Graham Greene amaram tanto e que lamentaram sua perda com grande tristeza. Esta é a Missa amplamente respeitada que mesmo os não-católicos como Agatha Christie e Iris Murdoch vieram em sua defesa na década de 1970. Esta é a Missa que São Padre Pio insistiu em celebrar até sua morte em 1968, mesmo depois de os burocratas litúrgicos tenham começado a bagunçar com o missal (e este era um homem que sabia uma coisa ou duas sobre os segredos da santidade). Esta é a Missa que São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, recebeu permissão para continuar celebrando em privado no final de sua vida.

Que nuvem gloriosa de testemunhas que rodeia a Missa Tradicional em latim! Sua santidade foi forjada como ouro e prata na fornalha desta Missa, e é uma bênção imerecida que nós, também, podemos procurar e obter da mesma maneira. Sim, eu posso ir para a nova missa e perceber que estou na presença de Deus e Seus Santos (e por isso sou profundamente grato), mas uma ligação histórica e concreta a estes santos foi cortada, bem como uma ligação histórica coma a minha própria herança como um católico com o Rito Romano.

2. O que é verdade para mim, é ainda mais para os meus filhos. Esta forma de celebrar molda profundamente as mentes e os corações de nossos filhos para a reverência a Deus Todo-Poderoso, nas virtudes da humildade, obediência e silêncio na adoração. Ela preenche os sentidos e a imaginação com sinais e símbolos sagrados, “cerimônias místicas” (como diz o Concílio de Trento). Maria Montessori frequentemente apontou que as crianças pequenas são muito receptivas à linguagem dos símbolos, muitas vezes mais do que os adultos, e que aprenderão com mais facilidade assistindo as pessoas rezarem uma liturgia solene do que ouvir um monte de palavras com pouca ação. Tudo isso é extremamente impressionante e emocionante para as crianças que estão aprendendo a sua fé, e especialmente para os meninos que se tornam coroinhas. [1]

3. Sua universalidade. A missa tradicional em latim não só fornece uma ligação visível e ininterrupta do dias de hoje até um passado distante, como constitui também uma ligação inspiradora de unidade em todo o globo. Os católicos mais velhos muitas vezes recordam o quão tocante era acolitar a missa no estrangeiro pela primeira vez, e descobrir que “a missa era a mesma” onde quer que fossem. A experiência foi uma confirmação da catolicidade do seu catolicismo. Por outro lado, hoje muitas vezes é difícil encontrar a mesma Missa na mesma paróquia no mesmo fim de semana. A universalidade da Missa Tradicional com o seu guarda-chuva do latim como língua sagrada e sua insistência de que o sacerdote coloque de lado suas próprias preferências idiossincráticas e culturais e colocar sobre a pessoa de Cristo, age como um verdadeiro Pentecostes em que muitas línguas e tribos veem juntas como um só no Espírito - em vez de uma nova Babel que privilegia as identidades impartilháveis como etnia ou idade grupo e que ameaça para ocluir o princípio “Nem grego nem judeu” do Evangelho

4. Você sempre sabe o que você está recebendo. A missa será focada no Santo Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz. Haverá respeitoso e orante silêncio antes, durante e depois da Missa. Haverá apenas os homens que servem no santuário, apenas padres e diáconos que manuseiam o Corpo de Cristo de acordo com quase 2.000 anos de tradição. As pessoas geralmente se vestem modestamente. A música pode não estar sempre presente (e quando presente, nem sempre pode ser perfeitamente executada), mas você nunca vai ouvir canções pseudo-pop com letras narcisistas ou heréticas.

Em outras palavras, a forma tradicional do rito romano nunca pode ser completamente cooptada. Como quase qualquer outra coisa boa deste lado da sepultura, a missa em latim pode ser remendada, mas nunca abusada, na medida em que já não aponta para o Deus verdadeiro. Chesterton disse certa vez que “há apenas uma coisa que nunca ultrapassa um certo ponto na sua aliança com a opressão: é a ortodoxia. Posso, com certeza, torcer a ortodoxia de forma a, em parte, justificar um tirano. Mas posso facilmente inventar uma filosofia alemã que o justifique completamente.” [2] O mesmo é verdadeiro para a missa tradicional em latim. O Padre Jonathan Robinson, que não era um amigo do antiquior usus, no entantona hora de escrever seu livro,  admitiu que “a atração perene do Rito Antigo é que ele forneceu uma referência transcendental, e o fez, mesmo quando foi mal utilizado de várias maneiras.” [3] por outro lado, Robinson observa, que enquanto a missa nova pode ser celebrada em uma forma reverente que nos direciona para o transcendente, “não há nada na regra que rege a forma como o Novus Ordo é celebrado que garanta a centralidade da celebração do mistério pascal.” [4] em outras palavras, a nova missa pode ser celebrada de forma válida, mas de uma forma que coloca tal ênfase na comunidade que pode ascender a “a negação virtual de uma compreensão católica da Missa.” [5] por outro lado, a inerente indestrutibilidade do significado da missa tradicional é o que inspirou um comentador a compará-la com a antigo ditado da Marinha dos Estados Unidos: “é uma máquina construída por gênios que pode ser operada com segurança por idiotas” [6]

5. É autêntica. O rito romano clássico tem uma óbvia orientação teocêntrica e cristocêntrica, encontradas tanto na posição ad orientem do sacerdote e nos textos ricos do clássico Missal Romano, que dão ênfase muito maior ao Mistério da Santíssima Trindade, da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e do sacrifício de Nosso Senhor na Cruz. [7] Como o Dr. Lauren Pristas tem mostrado, as orações do novo Missal são muitas vezes diluídas em sua expressão do dogma e da doutrina ascética, enquanto as orações do antigo Missal são inequivocamente e intransigentemente Católicas. [8] É autêntica, a fonte pura, algo não remendado por “especialistas” para o “homem moderno” e ajustado às suas preferências. Mais e mais pastores católicos e estudiosos estão reconhecendo o quão apressadas e atabalhoadas foram as reformas litúrgicas da década de 1960. Isso nos deixou em uma situação confusa em que a própria liturgia reformada é totalmente mal equipada para fornecer uma solução, com sua variedade de opções, as suas rubricas minimalistas, sua vulnerabilidade à manipulação “de dirigentes”, e sua descontinuidade manifesta com pelo menos quatorze séculos de culto católico - descontinuidade poderosamente exibida na questão da linguagem, desde os velhos sussurros e cantos da missa na Santa Língua materna da Igreja Ocidental, enquanto a nova Missa tem desajeitadamente em se misturado com o sempre cambiantes vernáculos do mundo.

6. Um calendário superior para os santos. Em discussões litúrgicas, muita munição é gasta em defender ou atacar alterações no Ordinário da Missa - o que é compreensível. Mas uma das diferenças mais significativas entre os missais de 1962 e 1970, é o calendário. Vamos começar com o Santoral, os dias de festa dos santos. O calendário de 1962 é uma cartilha incrível da história da Igreja, especialmente a história da Igreja primitiva, que muitas vezes fica esquecida hoje. É providencialmente disposto de tal forma que certos santos formam diferentes “grupos” que acentuam uma faceta particular de santidade. Os criadores do calendário geral de 1969/1970, por outro lado, eliminaram ou rebaixaram 200 santos, incluindo São Valentim (do dia de São Valentim) e São Cristóvão, o santo padroeiro dos viajantes, alegando que ele nunca existiu. Também eliminou Santa Catarina de Alexandria, pela mesma razão, embora seja ela um dos santos que Santa Joana D’Arc viu quando Deus exortou-a a lutar contra os ingleses. [9] Os arquitetos do novo calendário frequentemente tomam suas decisões com base em estudos históricos modernos, em vez das tradições orais da Igreja. Seus critérios acadêmicos chamaram a atenção para a réplica de Chesterton que confiava mais nos contos das velhas esposas do que das solteironas. "É muito fácil ver por que uma lenda é, e deve ser tratada com mais respeito do que um livro de história", escreve. “A lenda é, geralmente, criada pela maioria das pessoas sãs da cidade, ao passo que o livro é, geralmente, escrito pelo único homem louco dessa cidade. [10]

7. Um calendário superior para as estações do ano. Da mesma forma, o “Ciclo Temporal” - Natalício, Epifania, Septuagésima, Páscoa, Tempo depois do Pentecostes etc- é muito mais rico no calendário 1962. Graças ao seu ciclo anual do Próprio, cada domingo tem um tom distinto, e essa recorrência anual cria um marcador ou critério que permite para os fiéis medirem seu progresso espiritual ou declínio ao longo de suas vidas. O calendário tradicional tem antigas observâncias como Têmporas e os dias de jejum e oração que aumentam não só a nossa gratidão a Deus, mas o nosso apreço da bondade das estações naturais e dos ciclos agrícolas da terra. O calendário tradicional não tem algo como “Tempo Comum” (a frase mais infeliz, dado que que não pode haver tal coisa como “tempo comum” depois da Encarnação [11]), mas em vez disso, tem um tempo depois da Epifania e um tempo depois de Pentecostes, estendendo assim o significado dessas grandes festas como uma longa luminescência ou eco. Em companhia com o Natal, Páscoa, Pentecostes, há uma festa não menos importante, é celebrada por oito dias, para que a Igreja possa aproveitar o calor e a luz do fogo celeste. E o calendário tradicional tem a estação pré-quaresmal de Septuagesima ou “Carnevale”, que começa três semanas antes da quarta-feira de cinzas e habilmente auxilia na transição psicológica da alegria do Natalício para a tristeza da Quaresma. Como a maioria das outras características do antiquior usus, os aspectos acima mencionados do calendário são extremamente antigos e nos ligam vivamente com a Igreja do primeiro milênio e até os primeiros séculos.

8. Um caminho melhor para a Bíblia. Muitos pensam que o Novus Ordo tem uma vantagem natural sobre a missa antiga, porque tem um ciclo de três anos de leituras de domingo e um ciclo de leituras de segunda a sexta de dois anos, e leituras mais longas e mais numerosas na missa, em vez do antigo ciclo de um ano que normalmente consiste em duas leituras por Missa (Epístola e Evangelho). O que eles esquecem é o fato de que os arquitetos do Novus Ordo simultaneamente retiraram a maioria das alusões bíblicas que formavam a urdidura e a trama do Ordinário da Missa, e depois atiraram uma infinidade de leituras com pouca atenção à sua congruência uma com as outras. Quando se trata de leituras bíblicas, o antigo rito opera em dois princípios admiráveis: em primeiro lugar, as passagens são escolhidas não para seu próprio bem ("passar" tanto das Escrituras quanto possível), mas para iluminar o significado da ocasião de adoração; segundo, que a ênfase não é sobre um mero aumento de conhecimento bíblico ou instrução didática, mas em “misteriologia”. Em outras palavras, as leituras da Missa não são destinadas a serem uma escola dominical, mas uma iniciação nos mistérios da Fé. O seu número mais limitado, brevidade, adequação litúrgica e repetição ao longo de cada ano é um poderoso agente de formação espiritual e preparação para o sacrifício eucarístico.

9. Reverência à Santíssima Eucaristia. A forma ordinária da Missa pode, naturalmente, ser celebrada com reverência e com os ministros ordenados a distribuir a comunhão. Mas vamos sejamos honestos: a grande maioria das paróquias católicas autoriza “extraordinariamente” ministros leigos da Sagrada Comunhão, e a grande maioria dos fiéis recebem a Sagrada Comunhão na mão. Estas duas coisas por si só constituem uma violação significativa em reverência pelo Santíssimo Sacramento. Ao contrário do sacerdote, ministros leigos não purificam as mãos ou os dedos após o manuseio de Deus, assim, acumulam e espalham partículas da presença real. O mesmo é verdade para os fiéis que recebem a Comunhão na mão; até mesmo um breve contato com o hóstia na palma da mão pode deixar partículas minúsculas da vítima consagrada. [12] Pense nisso: todos os dias, milhares e milhares destes atos não intencionais de profanação do Santíssimo Sacramento ocorrem em todo o mundo. Quão paciente é o Coração Eucarístico de nosso Senhor! Mas será que realmente queremos contribuir para esta profanação? E mesmo se nós mesmos recebermos a comunhão na língua, pelo Novus Ordo da Missa, as chances são de que ainda seremos cercados por esses hábitos - um ambiente descuidado que nos encherá de indignação e tristeza ou levará uma indiferença. Estas reações não são úteis para experimentar a paz de presença real de Cristo, nem são uma forma ideal para elevar os filhos na fé!

Pontos semelhantes poderiam ser feitas sobre o "perturbador sinal de Paz " [13] ou leitoras e ministros do sexo feminino, que, para além de constituir uma quebra total com a tradição, podem vestir-se com roupas de modéstia questionável; ou o costume quase universal de bate-papo em voz alta antes e depois da missa; ou a improvisação e das preferências do sacerdote. Estas e muitas outras características da Novus Ordo como muitas vezes é celebrado são todas, individual e coletivamente, sinais de uma falta de fé na presença real, sinais de uma horizontal auto-celebração antropocêntrica da comunidade.
Este ponto deve ser enfatizado: é especialmente prejudicial para as crianças testemunhar, uma e outra vez, a chocante falta de reverência com a qual Nosso Senhor e Deus é tratado no Sacramento do Seu Amor, fileira após fileiras os fiéis vão automaticamente receber um presente que geralmente tratam com indiferença e até mesmo tédio. Acreditamos que a Eucaristia é realmente nosso Salvador, nosso Rei, nosso juiz – mas eles agem de forma como se lidássemos simplesmente com comida e bebida (embora simbolicamente), o que explica por que tantos católicos parecem ter uma visão protestante do que está acontecendo na Missa. Esta situação infeliz não vai acabar até que as normas, pré-Vaticano II, relativas à hóstia sagrada sejam obrigatórias para todos os ministros litúrgicos, o que não é provável que aconteça em breve. O porto seguro de refúgio é, mais uma vez, a Missa Tradicional em latim, onde sanidade e santidade prevalecem.

10. Quando tudo estiver dito e feito, é o mistério da fé. Muitas das razões para perseverar em apoiar a missa tradicional, apesar de todos os problemas que o diabo tenta criar, pode ser resumidas em uma palavra: mistério. O que São Paulo chama musterion e que a tradição litúrgica latina designa por mysterium e sacramentum estão longe de ser conceitos marginais no cristianismo. A dramática auto-revelação de Deus para nós, ao longo da história e, sobretudo, na Pessoa de Jesus Cristo, é um mistério no sentido mais elevado do termo: é a revelação de uma realidade que é totalmente compreensível, mas sempre inevitável, luminosa ainda que sua luminosidade cegue. É justo que as celebrações litúrgicas que nos colocam em contato com o nosso próprio Deus devem conter o selo do Seu mistério eterno e infinito, a sua maravilhosa transcendência, Sua esmagadora santidade, Sua encantadora intimidade, Seu suave e penetrante silêncio. A forma tradicional do rito romano certamente carrega este selo. Suas cerimônias, sua linguagem, sua postura ad orientem, e sua música etérea não são obscurantistas, mas perfeitamente compreensíveis e ao mesmo tempo incutem um sentido do desconhecido, até mesmo o medo e desafio. Ao promover um sentido do sagrado, Missa Antiga preserva intacto o mistério da fé. [14]

Em suma, o clássico Rito Romano é um embaixador da tradição, uma parteira para o homem interior, um tutor ao longo da vida na fé, uma escola de adoração, contrição, gratidão e súplica, uma pedra absolutamente confiável de estabilidade em que podemos confiantemente construir nossa vida espiritual.

A medida que o movimento para a restauração da sagrada liturgia da Igreja cresce e ganha força, não é o momento de desânimo ou segundas intenções; é um tempo para um abraço alegre e sereno de todos os tesouros que nossa Igreja tem guardado para nós, apesar da falta de visão de alguns dos seus pastores e a ignorância (geralmente não culpa própria) de muitos dos fiéis. Esta é uma renovação que deve acontecer para a Igreja é sobreviver aos próximos perigos. Será que o Senhor pode contar conosco para estarmos prontos para liderar o caminho, a realizar-se a "fé católica e ortodoxa"?! Será que podemos responder às Suas graças a medida que Ele nos leva de volta para as imensas riquezas da tradição que Ele, na sua bondade, deu à Igreja, Sua noiva?!

Não é hora de cansaço, mas de colocar a mão na massa. Por que devemos privar-nos da luz, paz e alegria do que é mais bonito, mais transcendente, mais sagrado mais santificador, e mais obviamente Católico? Bênçãos inumeráveis ​​esperam por nós quando, no meio de uma crise de identidade sem precedentes da Igreja de hoje, vivemos a nossa fé católica na fidelidade total e com a dedicação ardente dos mártires Elisabetanos que estavam dispostos sofrer, em vez de ser se separar da missa tinham aprendido a valorizar mais do que a própria vida. Sim, vamos ser chamados a fazer sacrifícios - aceitando a hora inconveniente ou um local menos satisfatório, aceitar humildemente a incompreensão e até mesmo a rejeição de nossos entes queridos - mas nós sabemos que os sacrifícios em prol de um bem maior é a medula da caridade.

Demos dez razões para assistir à missa tradicional em latim. Há muito mais que poderia ser dado, e cada pessoa terá a sua própria. O que sabemos com certeza é que a Igreja precisa de sua Missa, precisamos desta missa, que de uma misteriosa de forma nos concede um privilégio imerecido, a Missa precisa de nós. Vamos abraçar a causa e abrir caminho para Cristo, nosso Rei, nosso Salvador, nosso tudo.


NOTAS
[1] Ver, Helping Children Enter into the Traditional Latin Mass [Ajudar as crianças entram para a missa em latim tradicional] (parte 1 , parte 2 ); Ex ore infantium: Children and the Traditional Latin Mass [Ex ore infantium: Crianças e a Missa Latina tradicional] ( aqui ).
[2] Chesterton, ortodoxia (Campinas: Ecclesiae, 2013), 188.
[3] Jonathan Robinson, The Mass and Modernity [a Missa e Modernidade] (Ignatius Press, 2005), 307.
[4] Ibid., 311, grifo do autor.
[5] Ibid., 311.
[6] O mesmo autor, John Zmirak (que é reconhecido sobre esta questão), continua: "A antiga foi trabalhada por santos, e pode ser celebrada por desleixados sem risco de sacrilégio. O novo rito foi montado por burocratas, e só deve ser celebrado com segurança pelo santo. "John Zmirak," All Your Church Are Belong to Us [a Igreja nós pertence]"
[7] Tal como documentado no Peter Kwasniewski, Resurgent in the Midst of Crisis [Resurgente no meio da crise] (Kettering, OH: Angelico Press, 2014), cap.6, "Offspring of Arius in the Holy of Holies. [Geração de Arius no Santo dos Santos.]"
[8] Ver, entre muitos bons estudos de Lauren Pristas, seu livro Collects of the Roman Missal: A Comparative Study of the Sundays in Proper Seasons Before and After the Second Vatican Council [Obras sobre o Missal Romano: Um Estudo Comparativo do domingo em épocas apropriadas antes e depois do Concílio Vaticano II] (Londres: T & T Clark, 2013).
[9] Felizmente, reconhecendo que isso foi um erro, o Papa João Paulo II restaurou Santa Catarina no calendário Novus Ordo vinte anos mais tarde, mas  o que fazer em relaçãão a todos os outros que ainda permaneceram cortados?
[10] Chesterton, ortodoxia, 77.
[11] Ver, entre os muitos que defendem este ponto, Pe.Richard Cipolla, Epiphany and the Unordinariness of Liturgical Time [Epifanía e tempo liturgico extraordinário]
[12] Ver Pai X, " Losing Fragments with Communion in the Hand [Fragmentos perdidos com a Comunhão na mão],  The Latin Mass Magazine (Fall 2009), 27-29.
[13] O "sinal de paz" do  Novus Ordo não tem quase nada a ver com a forma digna em que a "Pax" é dada em uma Missa Solene, onde é claro que a paz em questão é um dom espiritual que emana o Cordeiro de Deus imolado no altar e que gentilmente se espalha através dos ministros sagrados até que repousa sobre os ministros mais humildes que representam o povo
[14] Durante séculos, indo todo o caminho de volta para a Igreja primitiva (o mesmo, diz São Tomás de Aquino, aos Apóstolos), o padre sempre disse "Mysterium Fidei" no meio da consagração do cálice. Ele estava se referindo especificamente à irrupção ou irrupção de Deus em nosso meio neste Sacramento insondável.




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Aculturação e inculturação: evangelização do índio brasileiro

A repulsa à evangelização em aldeias indígenas, defendida atualmente por vários pensadores da academia brasileira, tem origem em teorias sociológicas e antropológicas modernas, as quais trabalham o tema da "aculturação". Acredita-se que índio deve manter intacta sua cultura primitiva, sem que haja interferência de culturas externas. Isso, obviamente, não acontece de fato, pois o índios dos dias atuais já não conseguem se manter indiferentes à influência da economia de mercado. Nem a seus benefícios nem a seus vícios. 

Essa mentalidade de impedir que os índios sejam evangelizados vai totalmente de encontro com a própria Doutrina da Igreja, que sempre promoveu a evangelização dos gentios e condenou o indiferentismo religioso. Indiferentismo é um dos grandes males da modernidade. É a crença de que qualquer religião leva a salvação, desde que a pessoa tenha um comportamento reto. É um grande mal, pois nega as bases da nossa civilização e nossa origem lusitana católica.

Um dos grandes ícones históricos da evangelização indígena, antes da expulsão dos jesuítas do Brasil no século XVIII, é o padre José de Anchieta, santo da Igreja. Ele veio em missão jesuítica no ano de 1553 para trabalhar a evangelização dos índios. É pioneiro. Foi o autor da primeira gramática Tupi-Guarani. Seu  trabalho foi primordial tanto na missão catequética da Igreja quanto na herança histórica brasileira, pois os índios não praticavam a língua escrita. Sem isso, a língua nativa já estaria perdida.

Porém, há de se distinguir o termo "aculturação" de "inculturação".Os textos e traduções ao tupi-guarani de São José de Anchieta, destinados a catequese, tinham grandes traços de inculturação. Isso era necessário para tornar mais inteligíveis certos conceitos cristãos aos povos indígenas brasileiros. Para isso, ele tinha que adentrar no imaginário indígena, inclusive pegando de empréstimo termos da cosmologia do nativo.Tudo em prol da salvação de suas almas.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que está por trás da acusação contra Flávio Dino


Deltran Dallagnol, um dos procuradores da Lava-Jato, declarou que em 3 anos de operação, nenhum dos delatores mentiu sobre informações dadas em juízo durante as delações. Alguns omitiram fatos, mas não mentiram sobre o teor de seus depoimentos.

Um dos delatores da Odebretch foi o ex-diretor da companhia José de Carvalho Filho. Em depoimentos recentes, o ex-executivo trouxe várias informações sobre diversos processos, entre elas, uma que se refere a campanha de Dilma Rousseff em 2014, que comprometem diretamente o atual ministro-chefe da Casa Civil Eliseu Padilha, do PMDB.

Na recente lista de denúncias divulgada pelo ministro do STF Edson Fachin, José Filho relata um episódio em que teria doado ao governador do Maranhão Flávio Dino R$400 mil não contabilizados, para a sua campanha em 2010. O delator afirmou que a ajuda foi solicitada pelo próprio Flávio Dino, quando se reuniam para tratar do desarquivamento de um projeto de lei que beneficiaria a Odebrecht.

Flávio Dino negou as acusações feitas contra ele afirmando que não votou nem deu parecer no projeto que é acusado de ter beneficiado em troca de R$400 mil. Apesar da acusação do ex-executivo não ser exatamente essa. Entre 2007 e 2010, Dino foi vice-líder de um bloco que reunia mais de 5 partidos da Câmara, os quais aparecem como maioria dos autores do projeto 2.279/2007, o qual a Odebrecht tinha interesse. A lista dos autores foi divulgada pelo próprio governador em seu Twitter. Flávio Dino não era autor do projeto nem foi essa a acusação. O que a empreiteira queria era o seu desarquivamento.

O projeto estava parado desde 2011 e foi finalmente desarquivado em 2015, a partir de um requerimento apresentado pelo deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA)

Em sua defesa, Flávio Dino também publicou no Twitter uma declaração da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara que atesta que o ex-deputado não deu qualquer parecer em relação ao projeto. A data da consulta é 17 de março de 2017, quase um mês antes do anúncio do teor das acusações. A outra coincidência é que a certidão é datada exatamente no dia do aniversário de 3 anos da Operação Lava-Jato.

domingo, 9 de abril de 2017

A paz de Cristo e o terror do ISIS

Domingo de Ramos é a data litúrgica que celebra a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém, onde foi recebido pelo povo com ramos de palmeira, símbolo de vitória. Na Sagrada Escritura, Cristo entra na cidade montado num jumento, que era considerado na cultura hebraica como um animal da paz. Ao contrário do cavalo, um animal de guerra. Infelizmente, esta data tão cara para cristãos de todo mundo foi, mais uma vez, marcada pela guerra contra Cristo. O Estado Islâmico operou hoje duas explosões na porta de igrejas cristãs ortodoxas no Egito. Na cidade de Tanta, ao norte de Cairo, capital do Egito, as explosões ocorreram na porta de uma igreja e em uma delegacia. Na Alexandria, a explosão ocorreu na porta da igreja de São Marcos, onde se encontrava o patriarca ortodoxo Theodoro II. Ao todo, foram 36 mortos.
"Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém; eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta. Ele suprimirá os carros de guerra na terra de Efraim, e os cavalos de Jerusalém. O arco de guerra será quebrado. Ele proclamará a paz entre as nações, seu império estender-se-á de um mar ao outro, desde o rio até as extremidades da terra."  
Zacarias 9, 9-10
O mundo prega hoje uma falsa tolerância a todas as religiões e uma paz artificial. A tolerância só é verdadeira quando paira sobre ela uma verdade. Não há tolerância sem que haja, acima de tudo, um bem maior que a sustente.

A primeira Carta Encíclica do papa Pio XI foi a "Ubi Arcano Dei Consilio: sobre a Paz de Cristo no Reino de Cristo". O propósito do documento, lançado em 1922, logo depois da I Guerra Mundial, foi fazer com que os cristãos refletissem sobre o tema da paz. Nela, o papa transcreve trechos bastante pertinentes das palavras de Jeremias, em que, inspirado por Deus, o profeta adverte aos hebreus que mesmo esperando a felicidade só encontraram tristeza e esperando a paz só encontraram o terror, porque não estavam buscando aquele que é a felicidade e a paz última, o próprio Deus.

Pio XI enumera várias motivos para a falta de paz do mundo. Ele descreve, entre outros, a luta de classes, a qual considera uma "úlcera moral" instigada por perversas ideologias, a crise espiritual no próprio clero, o afastamento de Deus da Educação e das Famílias, o nacionalismo imoderado e a exacerbação dos vícios entre os governos, entre eles, a vaidade e a ambição, disfarçadas "sob o véu do bem público ou do patriotismo".

"É necessário, em primeiro lugar, que reine a paz nos espíritos", adverte o papa, que, com razão, afirma não haver possibilidade de verdadeira paz quando ela é imposta artificialmente por fatores externos. A verdadeira paz deve ser cultivada em primeiro lugar nos espíritos. Ela só pode ser encontrada quando é sustentada por uma verdade, e só Cristo é capaz de fornecer essa verdade, tanto aos povos quanto aos corações. Só haverá verdadeira paz quando Cristo, conforme simboliza os ramos de palmeira, triunfar sobre o mundo.

terça-feira, 4 de abril de 2017

José Mayer e o mito do bom selvagem

Em tom de brincadeira, cheguei a dizer nas redes sociais que os esquerdistas deveriam considerar o ator José Mayer, acusado de assédio, uma vítima da "cultura machista", já que frequentemente eles defendem que traficantes e outros criminosos são vítimas da desigualdade social brasileira. Ou seja, a culpa é das circunstâncias. Entretanto, para minha ingrata surpresa, foi exatamente esse o argumento usado pelo ator em sua retratação pública. Em carta aberta, José Mayer definiu-se como um "fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas". O que ele tentou fazer com esse argumento foi transferir a culpa de seu ato, que é somente sua, para toda uma geração, atribuindo sua atitude ao machismo impregnado na sociedade. José Mayer é um hipócrita. Um covarde.

Os relatos feitos pela figurinista Susllem Tonani não dão conta somente de piadas ou brincadeiras. José Mayer não a assediou. Aquilo foi um verdadeiro abuso sexual. Passar a mão nos órgãos genitais de uma mulher e lhe falar indecências vai muito além de uma piada de mau gosto. O que ele merece é cadeia, não direito de resposta.

Como bom petista que é, ele soube usar bem o argumento rousseauniano do "bom selvagem". Na lógica torpe de José Mayer, todo homem nasce puro, e é a sociedade ou a "geração" que o transforma num escroto. Essa é a base de praticamente todas as ideologias políticas modernas.

Essa tese é reforçada, por exemplo, por muitas correntes do feminismo que acreditam que ao se combater o "machismo", combate-se também a violência contra a mulher. Ela também é a base da crença de que a imigração em massa de muçulmanos para a Europa pode ser uma forma de eliminar o terrorismo, pois o contato com uma sociedade mais "evoluída" faria com que eles abrissem mão do seu fundamentalismo. Porém, os fatos não confirmam os argumentos.

Diferentemente do que pensam essas ideologias, a doutrina cristã ensina que todos nós tendemos ao mal, porque o homem já nasce manchado pelo pecado. Abandonar o mal e seguir o caminho do bem é antes de tudo um longo processo. O homem tem o livre-arbítrio para escolher o caminho do bem ou do mal. Nutrir as virtudes ou alimentar os vícios e a degradação moral é uma questão de escolha.

Outra diferença de uma atitude cristã verdadeira para a de José Mayer é que sempre que erramos e pedimos perdão, repetimos diante de Deus que erramos por "minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa".

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Comida, diversão, arte e violência

Mais um crime envolvendo festas na Universidade Federal do Maranhão foi registrado na última sexta-feira 31. De acordo com as informações do blog do jornalista Diego Emir, a vítima prestou queixa na delegacia da Vila Embratel, relatando o ocorrido durante a Calourada Geral organizada pelo Diretório Central dos Estudantes da UFMA.

O crime ocorreu 7 meses depois da reitoria da universidade ter proibido festas nas instalações do campus. Em agosto de 2016, durante uma festa do I Encontro da Juventude Porra-Louca, do qual já falamos aqui no blog, o estudante Kelvin Rodrigues foi assassinado no Centro de Ciências Humanas, dirigido pelo censurador Francisco de Jesus Silva Sousa. Após a fatalidade, festas estavam suspensas na UFMA. Até a última sexta.

Parece não ser muito difícil das autoridades competentes da UFMA e os representantes do DCE entenderem que quando um local não pode oferecer segurança aos seus frequentadores, não pode haver nenhum tipo de evento com grande aglomeração de pessoas, principalmente eventos que envolvam bebidas alcoólicas. Entretanto, a insistência em realizar esse tipo de evento na instituição é justificada pelo fato de que esse tipo de "calourada" e outras "atividades culturais", na verdade, são usadas para propaganda ideológica e arregimentação de militância política entre os estudantes. Isso pode ser confirmado no material de divulgação da calourada distribuído na UFMA antes do evento, com pautas políticas e críticas ao governo federal.


Até o momento desta publicação, a página oficial do DCE/UFMA não se pronunciou sobre o crime. Mas não é difícil prever a justificativa que será dada, caso haja alguma. Pois com certeza usarão a mesma estratégia dos organizadores do evento "porra-louca", que quiseram de todas as maneiras colocar a fatalidade ocorrida em seu evento na conta do "conservadorismo", do "machismo", da "homofobia" e da "extrema-direita" para se eximirem da responsabilidade.

Elucubrações ideológicas das mais variadas para justificar fatos sociais como assassinato e estupro é o que não falta no imaginário político desses celerados. A pergunta que deve ser respondida é: quantas vítimas da insegurança na UFMA ainda teremos para que sejam satisfeitos o projeto político da esquerda na universidade?

domingo, 2 de abril de 2017

Reféns do estado

Muitas vezes, a propaganda utiliza-se de recursos da redação jornalística para dar um caráter de confiabilidade a mensagem que quer transmitir. O objetivo é dar ao público a impressão de que se está passando uma informação confiável e não o anúncio de um produto ou uma idéia. É uma propaganda disfarçada de notícia. Até aí? tudo bem. O problema é quando jornalismo começa a usar artifícios da publicidade para transmitir uma informação que deveria ser, pelo menos na aparência, neutra e isenta.

A edição de hoje do jornal O Imparcial demonstra um pouco desse problema. O mais antigo jornal impresso do Maranhão, com quase 100 anos de fundação, emprestou sua edição de domingo para publicar na capa uma chamada que em nada se difere das peças publicitárias oficiais do governo estadual. O Imparcial se rebaixa ao fazer isso. O jornalismo maranhense se apequena cada vez mais.

O marxista italiano Antônio Gramci, que inspirou grande parte da esquerda brasileira a partir da década de 60, dizia que os revolucionários deveriam, de todas as formas, denegrir e boicotar os jornais da classe dominante e criar veículos de comunicação que falassem para o povo e para a classe trabalhadora de modo a servir ao projeto político da revolução. Essa foi justamente a estratégia usada pelos socialistas maranhenses desde a época de Jackson Lago, que destilava intensas críticas ao Sistema Mirante, controlado pelos Sarney, mas tinha outros veículos que serviam a seu propósito. Ao finalmente superar a "oligarquia" e assumir o governo, o comunista Flávio Dino lança mão exatamente das mesmas práticas que antes condenava: submete a imprensa livre a um projeto de poder.

Situações assim devem ser encaradas com a devida preocupação, porque nunca é um caso isolado. A estratégia gramsciana adotada pela esquerda brasileira envolve a criação de uma rede de influência com formadores de opinião na Comunicação, na Educação e em várias outras áreas, de modo a se criar um ambiente cultural que sustente de forma perene o projeto político revolucionário.

O próprio Imparcial publicou ontem em suas redes sociais uma foto da visita do governador maranhense a Lula, em São Paulo. Nos comentários, inúmeras críticas dos leitores ao fato de Flávio Dino reunir-se com um dos presidentes mais corruptos da história, apontado pelo Ministério Público chefe de organização criminosa.

Os poucos leitores que se prestavam a defender Dino limitavam-se a argumentar que é melhor ele que os Sarney. Apesar das práticas políticas se mostrarem as mesmas, o discurso é sempre o do nós, da classe revolucionária, contra eles, da classe oligárquica dominante. Discurso repercutido indiscriminadamente pela imprensa. Mas até quando?

sexta-feira, 31 de março de 2017

A ditadura porra-louca do CCH de Francisco Sousa

Dia 31 de março marca o início do regime militar no Brasil. A contra-revolução de 1964. Não obstante essa data ser considerada por muitos o início de uma era de cerceamento da liberdades no país, mais de meio século depois, vemos mais uma vez casos de censura e autoritarismo sendo praticados por servidores públicos. Na tarde de ontem, o diretor do Centro de Ciências Humanas da UFMA Francisco de Jesus Silva de Sousa proibiu a apresentação de uma palestra com uma temática anti-marxista. O tema da palestra era "Os contumazes idólatras do fracasso: porque o marxismo, embora desastroso, ainda é sedutor?". Segundo os organizadores do evento, o Grupo de Estudos Liberais Bem-TeVis, o motivo principal alegado pelo diretor do CHH/UFMA para a proibição foi que ele não gostava do palestrante.

É óbvio que o diretor de um centro de universidade federal detém o poder de conceder ou não as instalações físicas do prédio que administra, mas quando impede que um evento acadêmico aconteça, ele deve ter um bom motivo para isso, e os critérios que devem embasar sua decisão são critérios que dizem respeito estritamente a instituição que representa, não exclusivamente a suas convicções pessoais e gostos.

Francisco de Jesus Silva Sousa é professor do departamento de Psicologia, no qual já ministrou disciplinas de "Psicologia Social" e "Prática Profissional e Ética". Foi empossado como diretor do CCH/UFMA em abril do ano passado. Em agosto - alguns devem se lembrar, pois um rapaz morreu nesse evento - ocorreu no centro que administra, com sua permissão ou omissão, um evento chamado I Encontro da Juventude Porra-Louca. O encontro era uma retaliação ao I Encontro da Juventude Conservadora da UFMA, que ocorria na mesma data, no auditório central da universidade. Em sua programação, o evento autodenominado "porra-louca" teve apresentações artísticas com nudez, apologia a drogas, sexo livre, entre outras coisas. O tema era "Conservadorismo de Cu é Rola: se joga pintosa".


Embora soe caricata, a mensagem transmitida pelo evento porra-louca é nitidamente uma mensagem de ódio e autoritarismo. Se conservadorismo de cu é rola, podemos considerar que Cristianismo de cu é rola, Tradição de cu é rola e defesa de valores de cu é rola, e nós, porra-loucas, não permitimos nada disso aqui. É esse tipo de "evento científico" que o diretor Francisco de Jesus Silva Sousa aprova nas instalações de seu centro enquanto veta uma palestra de crítica ã mentalidade revolucionária marxista.

Boa parcela dos estudantes da UFMA não discute mais idéias, não lida mais com o contraditório, ofendem-se com argumentos contrários, rechaçam aquilo que nega o seu modo de ver o mundo. Trocaram conhecimento por ideologia. Argumentos, por opiniões. Pesquisa, por militância. Isso é grave, pois compromete a carreira acadêmica dessas pessoas, alienando-as apenas à ação política e à revolução cultural. São rios de dinheiro público investidos ali todos os anos, para ao fim realizarem um evento que afirma que a postura política das famílias, que pagam seus impostos e sustentam as universidades, e boa parte da população brasileira, que é conservadora, é cu e rola.

Na Idade Média, um dos métodos escolásticos de aprendizagem era o disputatio. O professor medieval apresentava aos alunos um problema, depois apresentava uma tese para resolvê-lo, posteriormente apresentava proposições que contraditavam a tese, depois algumas que a confirmavam. Após a exposição, fazia-se a análise das premissas de todos os argumentos favoráveis e contrários, para a partir da análise de todas as alternativas se tirar uma conclusão. Nas universidades medievais havia espaço para o debate de conhecimento, no Centro de Ciências Humanas da UFMA, não. Lá só há espaço para a militância tosca, chula, histérica e porra-louca.

quarta-feira, 29 de março de 2017

O "close errado" da Amazon

Nos últimos tempos, a sociedade tem presenciado acalorados debates no campo da política. E não só no Brasil como em vários outros países, em muitos casos, o debate político nacional foi levado para o lado pessoal. Filhos foram expulsos de casa, casamentos acabaram, amizades foram desfeitas no Facebook. De uma maneira ou de outra, sempre levamos as discussões políticas para o campo pessoal, principalmente quando os ânimos estão mais exaltados. Isso é inevitável. A forma como vemos a ação política é uma representação da forma como vemos o mundo.

Assim como para uma pessoa assumir firmemente uma posição pode ter consequências desagradáveis, uma empresa assumir um discurso político-ideológico também é bastante arriscado. Esse foi o risco assumido pela multinacional Amazon, que na última segunda-feira 29, lançou um vídeo da campanha "Kindle #MovidosPorHistórias". O filme é uma crítica a campanha do prefeito de São Paulo João Dória Jr que promoveu a pintura de edificações do patrimônio público danificadas pelas pichações. A Amazon acusa-o de deixar a cidade cinza, sem cor, o que ela tentou cobrir com "histórias". Você pode assisti-lo na íntegra abaixo.


A defesa das pichações e a crítica a postura de Dória é por si só uma posição ideológica. A esquerda revolucionária faz apologia ao que chamam de "intervenções urbanas" porque as pichações e até mesmo os grafites são intervenções artísticas que representam a áurea da modernidade, a contestação, a insubordinação às regras, aos padrões estéticos, às convenções, visão totalmente contrária às posturas do peesedebista. A Amazon foi ousada por assumir um partido no debate político e pagou caro por isso, pois a resposta de Dória foi devastadora.


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Com a provocação do prefeito, várias empresas o procuraram para atender ao apelo pela doação de itens de educação ao município de São Paulo. Isso soterrou ainda mais a campanha suicida da Amazon.

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Até o momento desta publicação, o vídeo da Amazon no YouTube tinha cerca de mil curtidas, mais de 6 mil desaprovações e inúmeros comentários negativos. Enquanto os vídeos de Dória estão beirando 100 mil manifestações favoráveis, cada um.

Esse episódio é mais um dos que desmistificam a crença que permeia o imaginário da esquerda e alguns setores da direita de que é nítida a distinção entre grandes capitalistas que operam no livre-mercado e as pautas políticas da esquerda. Pois, ao mesmo tempo que uma empresa transnacional norte-americana assume uma postura ideológica tipicamente revolucionária, atacando um governo liberal, como também assumiram tantas outras, um burocrata usa a parceria com entes privados para conseguir doações à população e não ao seu partido.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O que é Distributismo

Artigo de Thomas Stock publicado no site do Expresso Liberdade

Grande parte da História do Ocidente, desde meados do século XIX, foi a história de dois sistemas econômicos adversários. O Manifesto do Partido Comunista de 1848 declarou que “paira um espectro pela Europa”. De fato, paira um espectro não só sobre a Europa, mas sobre todo o mundo. Não se trata só do espectro do Comunismo, mas de sistemas econômicos e sociais rivais, que por várias vezes lançaram a Humanidade em convulsões sociais. Para muitos, estas rivalidades acabaram: o comunismo e o socialismo foram derrotados, logo, só resta ao capitalismo a reinar triunfantemente sobre o mundo. No entanto, não é este o caso. Numa passagem negligenciada da encíclica Centesimus Annus, João Paulo II realça que as escolhas da humanidade não estão limitadas ao capitalismo e ao comunismo. “É inaceitável que a derrota do chamado ‘Socialismo Real’ nos deixe o capitalismo como único modelo de organização econômica” (no. 35). Sendo assim, é obrigação dos católicos olhar com mais atenção para o Distributismo, um sistema econômico defendido por algumas das melhores mentes da Igreja da primeira parte do século XX. Homens como G. K. Chesterton, Hilaire Belloc, pe. Vincent McNabb e muitos outros. Vejamos em que consiste o Distributismo e porque é considerado por muitos cristãos como mais adequado ao pensamento social cristão do que o capitalismo.

Em primeiro lugar, devemos traçar algumas definições dos principais termos que iremos utilizar, especialmente do “capitalismo”. Muito frequentemente esta palavra não é muito bem definida, e cada pessoa lhe dá um significado, bom ou mau, conforme as suas próprias convicções, mas nunca a definindo claramente. Então, o que é o capitalismo? O capitalismo não é a posse privada de propriedade, mesmo que se trate de propriedade produtiva, pois tal tipo de propriedade existe na maior parte do mundo desde tempos muito remotos, enquanto que o aparecimento do capitalismo é normalmente situado na Europa do final da Idade Média. Talvez a melhor maneira de proceder seja escolher a definição de uma autoridade, e depois analisaremos como é que se enquadra com os fatos históricos. Voltemos a encíclica Quadragesimo Anno (1931), do Papa Pio XI, em que o capitalismo é definido, ou caracterizado, como “o sistema econômico em que o trabalho e o capital necessários para a produção são fornecidos por pessoas diferentes” (no. 100). Por outras palavras, no sistema capitalista normalmente trabalha-se para outra pessoa. Alguém, o capitalista, paga a outros, os trabalhadores, para que trabalhem para si, e recebe os lucros do seu empreendimento, isto é, o que sobra depois de pagar o trabalho, as matérias-primas, amortizações, débitos, etc.

Há alguma coisa de errado com o capitalismo, com a separação da posse e do trabalho? Não há nada de errado em ter uma fábrica ou uma quinta e pagar a outros para as trabalharem, desde que lhes pague um salário justo. No entanto, o sistema capitalista é perigoso e insensato. Os seus frutos foram nocivos para a humanidade, e o Sumo Pontífice fez o apelo por mudanças que iriam eliminar, ou pelo menos diminuir, o cerne e o poder do capitalismo.

Deixem-me explicar as afirmações que acabei de fazer. E para o fazer tenho de fazer primeiro um breve desvio para discutir o propósito da atividade econômica. Por que é que Deus deu ao homem a necessidade e a possibilidade de criar e utilizar-se de bens econômicos? A resposta é óbvia: necessitamos desses bens e serviços para levarmos uma vida humana.

A atividade econômica produz bens e serviços para servir toda a humanidade, e qualquer ordenamento econômico deve ser avaliado pela capacidade de preencher este objetivo.

Quando a posse e o trabalho estão separados, tem necessariamente de existir uma classe de homens, os capitalistas, que estão afastados do processo de produção. Os acionistas, por exemplo, não querem saber o que é que a empresa, da qual eles são formalmente os donos, faz ou produz, mas só lhes interessa saber se as ações estão a subir ou quais os dividendos que daí vão retirar. De facto, na bolsa, as ações mudam de mãos milhares de vezes por dia, ou seja, diferentes indivíduos ou entidades, como fundos de pensões, são em parte donos de uma empresa durante alguns minutos ou horas ou dias, e depois vendem-na tornando-se donos de outra entidade qualquer. Naturalmente esta classe de capitalistas passa a encarar o sistema econômico como um mecanismo pelo qual dinheiro, acções, títulos e outros equivalentes podem ser manipulados para enriquecimento pessoal, ao invés de servir a sociedade produzindo bens e serviços. Em resultado disto, têm-se feito fortunas através de takeovers hostis, fusões, encerramento de fábricas, etc., por outras palavras, aproveitam o direito de propriedade privada, não para se envolverem na atividade econômica produtiva, mas para se enriquecerem independentemente dos efeitos nos consumidores e trabalhadores.

Os Papas justificaram a posse privada de bens, mas se analisarmos os motivos e os argumentos por que o fizeram constataremos que a sua lógica está muito longe da capitalista. Examinemos, por exemplo, a famosa passagem da encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII.

Os homens trabalham mais e com mais prontidão quando trabalham naquilo que é seu; mais, aprendem a amar o solo que trabalham com as suas mãos, e lhes provê, não apenas comida para comer, mas uma abundância para ele e para os que lhe são queridos (no. 35).

Mas, o que acontece sob o capitalismo? Os homens aprendem a amar os certificados das ações que lhes renderão dinheiro, em resultado do trabalho de outra pessoa? A justificação que os Papas sempre fizeram da propriedade privada está ligada, pelo menos idealmente, à unidade entre a propriedade e o trabalho. Acrescenta Leão XIII: “A lei, portanto, deve favorecer a propriedade privada, e o seu objectivo deve ser tornar o maior número possível em proprietários” (Rerum Novarum, no. 35), e este ensinamento é repetido por Pio XI na Quadragesimo Anno (no. 59-62, 65), por João XXIII em Mater et Magistra (no. 85-89, 91-93, 111-115), e por João Paulo II em Laborem Exercens (no. 14). Se “o maior número possível… se tornar proprietário”, então a separação fatal entre trabalho e posse, será, se não removida, pelo menos o seu âmbito e influência será diminuída. Já não será a característica fundamental do nosso sistema econômico, mesmo que continue a existir.

E isto leva-nos diretamente ao Distributismo. Pois o Distributismo não é mais do que um sistema econômico em que a propriedade privada está bem distribuída, no qual “o maior número possível” é, de fato, proprietário. A melhor exposição do Distributismo pode provavelmente ser encontrada no livro de Hilaire Belloc, The Restoration of Property (1936). Atente-se ao título, O Restabelecimento da Propriedade. Os distributistas argumentaram que no regime capitalista, a propriedade produtiva é prerrogativa só dos ricos e que isto lhes dava um poder e influência sobre a sociedade muito maior do que aquilo a que têm direito. Embora formalmente todos tenham o direito à propriedade privada, na prática ela está restrita aos poucos.

Outra característica do distributismo, que decorre desta, é que numa economia distributista, haverá limites colocados sobre grande parte da propriedade. Antes que nos acusem de que isto parece socialismo, devemos recordar o comentário de Chesterton (em What’s Wrong With the World, cap. 6), de que a instituição propriedade privada não significa o direito ilimitado à propriedade, tal como a instituição casamento não significa o direito a ter mulheres ilimitadas.

Na Idade Média, as corporações profissionais, exemplo perfeito de instituições católicas, frequentemente limitavam a quantidade de propriedade que cada dono/trabalhador podia ter (por exemplo, limitando o número de empregados), precisamente com o interesse de evitar que alguém expandisse demasiadamente o seu negócio levando outros à falência. Isso porque se a propriedade privada tem um objetivo, como Aristóteles e São Tomás diriam, esse objetivo é assegurar que cada homem e a sua família possam levar uma vida digna, servindo a sociedade. Uma vida digna, e não duas ou três. Se o meu negócio me permite sustentar-me a mim e à minha família, então que direito eu tenho de o expandir a ponto de privar outros do meio de sustentarem a si e às suas famílias? Pois os medievais viam aqueles que se dedicavam à mesma atividade, não como rivais ou competidores, mas como irmãos empenhados no importante trabalho de providenciar ao público bens e serviços necessários. E como irmãos uniam-se nas corporações, tinham padres para rezarem pelos seus mortos, apoiavam as viúvas e órfãos, e de modo geral olhavam pelo bem-estar uns dos outros. Quem é que não é capaz de admitir que esta concepção de sistema econômico é mais adequada à fé cristã do que a ética selvagem do capitalismo?

quinta-feira, 23 de março de 2017

O triunfo da má política

O jornalista Diego Emir, o qual considero um dos mais competentes do estado, noticiou recentemente em seu blog que a TV Difusora e a Difusora FM estão em vias de serem vendidas ao deputado federal Weverton Rocha, que juntamente com outros parceiros comerciais estaria negociando com Edison Lobão Filho a compra da emissora. Há algo de podre no reino do Maranhão. Mesmo com a Operação Lava-Jato servindo de alento ao povo, que pede por mais Justiça no país, as práticas dos políticos e empresários continuam as mesmas. A mesma coisa continua também o desprendimento de políticos de negociarem meios de comunicação estratégicos com políticos que supostamente seriam de grupos adversários. Política é política. Negócios são negócios.

O que transparece à população é que todas essas divergências ideológicas de quatro em quatro anos não passam de uma encenação e que, no fundo, cada um dos que se dizem representantes do povo estão lá apenas para defenderem seus próprios interesses. Em 2014, Lobão Filho era o único concorrente na corrida eleitoral contra a ascensão comunista no estado. Dois anos depois, sua emissora prestava o ridículo papel de ser porta-voz do candidato pedetista Edivaldo Holanda, que teve sua campanha coordenada pelo próprio Weverton Rocha.

O parlamentar esquerdista recentemente protagonizou um dos maiores fiascos da política brasileira ao se colocar como autor da emenda que deturpou as "10 medidas contra a corrupção" propostas pelo Ministério Público Federal. A emenda apresentada pelo deputado, na prática, voltava o projeto das 10 medidas contra o próprio Ministério Público e a Justiça. A atitude foi interpretada como retaliação a ameaça representada pelas operações em curso que ameaçam a cúpula do poder.

Mesmo alegando que promotores e juízes devem responder à Justiça como qualquer cidadão, o deputado é dono de uma vasta lista de processos que correm no STF, por conta de sua imunidade parlamentar, entre os quais processos por dano ao erário, improbidade administrativa, formação de quadrilha, falsidade ideológica e peculato. Muitos deles são de autoria do Ministério Público, alvo da retaliação de Weverton no episódio das 10 medidas.

As polêmicas envolvendo essa figura da política maranhense iniciaram-se quando ainda militava no movimento estudantil. Em 2007, quando era secretário de Juventude e Esporte no governo do socialista Jackson Lago, sofreu a denúncia do recebimento de R$4 milhões do Ministério do Trabalho, chefiado por Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, destinados uma ONG fundada uma parente de primeiro grau de Weverton. Em 2011, ele assumiu uma vaga na Câmara dos Deputados como suplente, após a saída de Carlos Brandão. Seis anos depois, é cogitado para ser o novo proprietário de um dos principais veículos de comunicação do estado.

Se há algo de podre no reino da Dinamarca, a história dirá. O que posso dizer é que a nossa tragédia é muito mais simplória que as peças shakespeareanas.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Considerações sobre a Operação Turing e Eduardo Guimarães

Duas operações da Polícia Federal realizadas na manhã de ontem tiveram como alvo blogueiros. A primeira, no Maranhão, nomeada Operação Turing, conduziu e prendeu preventivamente vários blogueiros de São Luís, suspeitos de usarem informações que corriam em segredo de Justiça para chantagear investigados e lhes fornecer informações privilegiadas. A segunda operação, em São Paulo, conduziu coercitivamente o blogueiro Eduardo Guimarães que havia antecipado em seu blog a informação de que Lula seria alvo de uma operação policial e, com isso, informou diretamente aos investigados a existência de medidas judiciais que corriam sob sigilo.

Os dois casos ocorridos coincidentemente no mesmo dia são paradigmáticos, pois colocam na mesa algumas questões pouco debatidas no meio jornalístico. Se não pouco debatidas, pelo menos debatidas de maneira inconclusiva. A primeira é a reflexão sobre até onde vai a liberdade de informação. Aristóteles dizia que mesmo que um bem seja idêntico tanto para o indivíduo como para a pólis, é mais correto e perfeito resguardar o bem da  pólis, ou seja, da sociedade. Em outras palavras, quando o direito individual de informar fere o interesse público de manter certas investigações em segredo de justiça, é necessário que se prevaleça o interesse público e o dever da Justiça de manter sob sigilo certas investigações, até porque se tratam de investigações a pessoas que agiram contra a lei. Portanto, é necessário que se penalize a pessoa que transmitiu informações confidenciais, já que ninguém tem o direito publicar o que bem entender para tirar vantagem para si ou para outrem.

São direitos constitucionais a liberdade de informação e de expressão. Correto. Mas em praticamente todos os artigos em que esses direitos são expostos, resguardam-se os casos em que a opinião ou informação publicizadas firam a intimidade, a dignidade e os direitos inerentes de outros cidadãos ou da sociedade e do poder público. A liberdade de informação e de expressão não são absolutas.

A segunda questão é: querer rogar a um militante político panfletário, como no caso do Eduardo Guimarães, o ofício de jornalista e, portanto, as prerrogativas da profissão, é desvalorizar a classe jornalística e colocar o direito a informação e a liberdade de expressão não a serviço da verdade, da justiça ou das regras da democracia, mas em favor de um projeto político. Defender o blogueiro com o argumento de que ele é jornalista é avalizar a decisão do STF que derrubou a exigência do diploma para o exercício da profissão e, o que é ainda mais grave, qualificar qualquer tipo de atividade, inclusive a de propaganda ideológica, como jornalismo.

Não foram poucos os jornalistas alinhados ao petismo ou ao Partido Comunista, do qual Guimarães faz parte, que clamaram pelo direito do blogueiro de guardar o sigilo de sua fonte, no caso, da pessoa que lhe passou uma informação que corria sob segredo de justiça, que ele levou a público. Repito. É contra-senso exigir a valorização da profissão jornalística e ao mesmo tempo defender que qualquer pessoa que escreva em um blog, mesmo que seja um blog de pura propaganda partidária, também seja considerada plenamente um jornalista.

Logo, vê-se que os profissionais e veículos de comunicação que saem em defesa de um militante, atribuindo a ele a posição de "jornalista" e exigindo que seja respeitado o seu direito de sigilo da fonte não estão preocupados com a verdade, com a valorização do jornalismo nem mesmo os parâmetros éticos da profissão. Eles já colocaram a causa comunista e a defesa de um chefe de organização criminosa como Lula acima de tudo isso.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Desmascarando um "feministo"

Dias atrás, o jornalista José Linhares Júnior comentava em seu programa na rádio Rádio Capital a respeito do Dia Internacional da Mulher e do feminismo quando recebeu uma mensagem inesperada do blogueiro Marco Aurélio D`Eça, que, além de xingamentos a Linhares, afirmava que as mulheres não reivindicam por “igualdade” e sim por “equidade”, o que, segundo ele, são coisas diferentes. O jogo de palavras do blogueiro não faz sentido algum, mas essa confusão é comum na cabeça de pessoas que opinam sem propriedade do assunto.

“Igualdade” entre homens e mulheres seria não haver entre os sexos nenhuma diferença quantitativa, qualitativa ou valorativa, em termos de salários, tratamento jurídico ou status social. Isso é obviamente impossível, dadas as diferenças essenciais entre homens e mulheres. “Equidade” seria a busca pelo tratamento justo, dar tanto a homens quanto a mulheres o que é seu por direito, respeitando o princípio da isonomia, que preza pelo tratamento igual a todos os cidadãos. No discurso, tudo parece fazer sentido. Porém, por trás deste jogo de palavras, esconde-se uma realidade um tanto contraditória no que se refere aos direitos femininos.

Embora Karl Marx não tenha desenvolvido muito sobre o tema, o feminismo surgiu enquanto força política, no fim do século XIX,  a partir das bases de sua filosofia. Enquanto o pensador alemão afirmava que as relações na sociedade são ditadas pela luta de classes entre burgueses e proletários, as feministas transferiam esse conflito para a luta entre homens e mulheres. A mulher, portanto, para se voltar contra a dominação masculina deveria despertar em si uma “consciência de classe”. Para elas, numa relação familiar, o homem se põe como um opressor que subjuga a mulher através da força. A mulher deve se libertar disso para lutar por igualdade nas relações sociais, independente de sexo. Uma sociedade sem classes, segundo as feministas, deve ser uma sociedade sem distinções entre os sexos. Muitas delas acreditam ainda que os conceitos de matrimônio e a família são “superestruturas” (para usar um conceito marxista), que prendem a mulher na relação de opressão, e que devem por isso serem superados.

Na prática, a coisa não é bem assim. No início da industrialização, as mulheres ocupavam mais postos de trabalho que os homens, já que a principal atividade econômica que impulsionou o progresso econômico inglês no fim do século XVIII foi a indústria têxtil. O historiador marxista Eric Hobsbawm afirma que nos anos de 1830, os homens ocupavam apenas um quarto dos postos de trabalho disponíveis na indústria, mais da metade dos trabalhadores eram mulheres e o restante dos postos eram ocupados por crianças e adolescentes. Diferentemente do que calculavam as feministas ligadas ao socialismo, o feminismo acabou servindo ao sistema. O filósofo inglês G. K. Chesterton diz que o feminismo trouxe a idéia confusa de que as mulheres são livres quando servem aos seus empregadores, mas são escravas quando trabalham em seu lar.

A própria lógica do capital fez com que a suposta diferença cultural entre homens e mulheres se diluísse aos poucos, já que era proveitoso que mulheres também contribuíssem para a produção com sua mão-de-obra e também se tornassem consumidoras. Quem perdeu com tudo isso foi a estrutura familiar, que com o passar do tempo passou a ser um elemento secundário na vida das pessoas. A criação de filhos passou a ser concebida a partir do ponto de vista dos custos recorrentes para o seu sustento e dos benefícios econômicos que eles poderiam trazer.

No Brasil, não faz sentido falar de igualdade ou equidade entre homens e mulheres, já que as mulheres têm dezenas de direitos a mais que os homens. Somente direitos trabalhistas, são mais de dez. Entre eles um que se destaca é o que impõe que, embora a mulher, estatisticamente, viva mais tempo que o homem, ela tenha o direito de se aposentar com menos tempo de serviço. Em prol da “equidade” defendida por Marco D’Eça, muitos direitos oferecidos às mulheres, as desfavorecem competitivamente no mercado de trabalho, já que alguns empregadores, ao avaliarem a diferença de custos de se empregar uma mulher, acabam optando por empregar um homem. Isso seria justo?

Em alguns casos, mulheres têm privilégios em processos contra homens, inclusive nos que se referem à guarda dos filhos em caso de divórcio. Crimes cometidos contra mulheres também sofrem penas mais graves, a partir de uma lei aprovada por Dilma Rousseff em 2015.


Portanto, esse argumento da equidade defendido pelo egrégio comentarista político e supostamente defendido pelas mulheres e movimentos feministas não passa de ideologia. Quando os discursos são postos à luz dos fatos, vemos que há muito mais que se avaliar para que se preserve de fato a verdade e a justiça.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Por um dia sem feminismo

Como já era de se esperar, o Dia Internacional da Mulher foi marcado pelo show de horrores dos protestos de grupos feministas, que aproveitam a data para reivindicar por "direitos" para as mulheres. A data, que deveria ser utilizada para exaltar as virtudes femininas e as conquistas das mulheres no Brasil e no mundo, acaba virando, com ampla repercussão da mídia, palanque para as mais indecorosas reivindicações, como a luta contra o "machismo", contra a família, contra a religião cristã e a favor do aborto. Essas manifestações tornam mais clara a minha convicção de que a crise que o mundo vive, em especial o Brasil, é de ordem não só moral, como também espiritual e estética.

É primordial, quando se levanta certas questões, a precisão na definição dos termos. O "machismo" denunciado por essas manifestações feministas geralmente não se trata de nenhuma exploração institucionalizada das mulheres ou casos de violência explícitos, mas de vezes casos pontuais - que devem ser combatidos, logicamente, mas - que não devem ser o foco da questão. Por isso, a palavra "machismo" vem sendo cada vez mais desgastada até o ponto de sua exaustiva utilização levar a sua nulidade. Quando uma coisa é tudo, ela passa necessariamente a não ser nada.

Portanto, o "machismo" denunciado pelas por esses grupos, como o da manifestação que aconteceu no Rio, ganha contornos meramente simbólicos. Para elas, a simples manifestação do homem de sua masculinidade seria uma expressão do seu machismo. Elas não escondem o autoritarismo de seu discurso quando defendem que o homem não deve ter sequer o direito de ser homem. Essa mentalidade autoritária é apenas um dos sintomas da degradação desses grupos, que acham muito mais importante falar contra o governo Temer e defender o assassinato de crianças do que exaltar a virtude da mulher e lidar com os verdadeiros problemas enfrentados pelas mulheres hoje, como violência generalizada, desemprego, gravidez precoce, dissolução da estrutura familiar, drogas, entre muitos outros.

No final das contas, esses grupos acabam por se demonstrarem soldados na guerra ideológica que servem a diversos fins políticos e passam longe de defender os reais interesses das mulheres,

terça-feira, 7 de março de 2017

PSOL e a Cultura da Morte

O Partido Socialismo e Liberdade - PSOL protocolou hoje uma ação no STF que defende que a criminalização do aborto no Brasil viola a dignidade e a cidadania das mulheres. Sim, isso mesmo: para eles, proibir o aborto viola direitos das mulheres. A ação trata-se de uma "Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental". Os preceitos fundamentais descumpridos pelo Código Penal brasileiro, que criminaliza o aborto, seriam o da cidadania, dignidade, igualdade, liberdade e, pasmem, o direito à vida. A ação é assinada pela ex-deputada Luciana Genro, por Luciana Boiteux, professora do Departamento de Direito da UFRJ e por Gabriela Rondon e Sinara Gumieri, advogadas e pesquisadoras da Anis – Instituto de Bioética.

É incrível a capacidade de certos setores da esquerda de retorcerem a linguagem e própria lógica para defenderem as mais desumanas teses. Para as vestais da morte do PSOL, trata-se de um direito da mulher decidir sobre a vida de outro ser humano, que está sendo gerado em seu ventre. A ação não impõe nenhuma restrição a prática do aborto. Afirma apenas que o infanticídio deve ser feito nos 3 primeiros meses de gestação, independente de qual seja a motivação que leve a mulher a assassinar seu filho.

Não há como não perceber a áurea satânica dessa ideologia, mas este tipo de pensamento tem se alastrado em diversos meios, através da mídia e da academia. Não há nenhum argumento filosófico ou científico sério que justifique que o ser gerado no ventre materno não é uma vida. Os defensores da cultura da morte baseiam-se apenas em crendices - digo com todas as letras, religiosa - para defender que uma vida vale menos que a "dignidade" de outra.

A religião dos ideólogos do PSOL é a religião da morte. São pessoas profundamente ignorantes, que não nutrem nenhum valor pela vida e pela dignidade humana. Pessoas obscurantistas, que querem levar o Brasil para a Idade das Trevas, onde, como em outros países, milhares de crianças são, com o incentivo do governo, descartadas como lixo.