quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quando a Fake News entrevista uma intelectual fake

Foi publicada hoje na Folha de São Paulo uma entrevista com a filósofa americana da teoria queer Judith Butler, que lança no Brasil seu livro “Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo”. Em sua entrevista, Butler, que é judia, afirma que ser contra Israel por ser contra os judeus é antissemitismo, e isso deve ser proibido. Entretanto, ela diz se opor a Israel, que é essencialmente um estado judeu, porque o país é uma "forma de discriminação sistemática".

A confusão inicial expressa na fala de Butler pode ser explicada quando começamos a compreender um pouco o seu pensamento. A feminista acredita que a diluição das identidades nacionais em prol de uma ideologia universal pode ser uma das formas de se resolver o conflito entre israelenses e palestinos. Para ela, é necessário se firmar, pela "força democrática", uma união entre os povos. Ela acredita que a fragmentação da identidade cultural coletiva pode gerar um conjunto estreito de relações afirmativas e dinâmicas, como apoio mútuo, solidariedade e divergências saudáveis em prol da paz.

De forma bastante capciosa, a fake news brasileira diz que o “veto de Trump a muçulmanos lembra perseguição a judeus [no nazismo]” para depois, sorrateiramente, colocar isso na boca de Judith Butler. O jornalista Cláudio Tognolli lembrou certo dia em um de seus vídeos que desde o início da sua carreira, era comum ele ver jornalistas colocarem palavras na boca de entrevistados, as quais eles nunca falaram. Foi exatamente isso que a Folha fez, pois nem Butler chegou a esse ponto de sandice.

A professora é uma das papisas da teoria queer, que é a teoria que afirma que todas as "identidades" do indivíduo são construções sociais artificiais, inclusive a "identidade de gênero". Ela acredita que o gênero que o indivíduo se reconhece pode não ser seu sexo biológico natural. Esse tipo de teoria de forte raiz gnóstica têm sido bastante aceita na academia brasileira. Apesar de não haver nada que a comprove além da mera especulação ideológica, essa ideologia ganhado força e, inclusive, suscitado a criação de projetos de governo que pretendem aplicá-la na educação de crianças em escolas primárias do Brasil.

Porém, devemos sempre alertar sobre os perigos do autoritarismo que esse tipo de mentalidade tem gerado na atualidade. Para dar um exemplo disso, devemos lembrar que os que promoviam a perseguição aos judeus na Alemanha não o fazia por serem "brancos", "racistas", "protecionistas" ou "misóginos", mas por acreditarem que as identidades das nações poderiam ser diluídas em prol de um projeto ideológico totalitário de raiz gnóstica maior: o nazismo. De modo semelhante ao que acredita Butler. Pois, assim como os nazistas percebiam na elite econômica judaica da Alemanha uma cultura "racista", "protecionista" e "misógina", ela prega um combate ferrenho aos que discordam de suas idéias de mundo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Imposto é roubo? Considerações sobre o debate

Na última semana, fui convidado pelo anarco-capitalista Schwartz Neto para debater sobre o tema "imposto é roubo?". A princípio, o debate se restringiria a esse objeto, mas tratei de dar a ele um outro contexto. Considero que mais importante que apontar apenas um dos sofismas dessa ideologia é mostrar o quanto essas ideologias como um todo, por terem uma interpretação de mundo feita apenas de uma perspectiva, acabam por mergulhar o indivíduo num pequeno lago, do qual ele só tem uma ligeira impressão do oceano que é a realidade.

O lago anarco-capitalista pode ser chamado por vários nomes, mas eu o chamo de "materialismo". O filósofo G.K. Chesterton comenta que há dois tipos de pessoas que nunca têm dúvidas: o materialista e o doido. O materialismo é de fato uma espécie de loucura! Materialismo se trata da crença de que nada existe além da matéria e de que tudo pode ser explicado através dela. Embora seu gérmen tenha sido plantado na baixa Idade Média, essa visão de mundo ganhou relevância prática através de Karl Marx.

Interpretar as questões do mundo apenas pelo viés da matéria, considerando que a vida em sociedade e as relações humanas podem ser explicadas racionalmente apenas da perspectiva imanentizada da vida é negligenciar uma série questões que são essenciais. O materialista mente ao dizer que abrange todas as coisas em suas análises, porque na verdade ele deixa praticamente tudo de fora.

A debilidade deste tipo de modelo de pensamento se deve a vários fatores. Dentre eles, considero que o principal é ver tudo pelo viés econômico. O que, a partir da Economia, é a Beleza? O que é para a Economia o Bem ou até mesmo a sanidade, o caráter? A economia lida com aquilo que é ou não vantajoso economicamente. Ela lida com produção e trocas comerciais, com o mercado. Portanto, para a Economia, o mais belo e bom é aquilo que pode trazer mais lucro, porque é exatamente esse o seu fim. Ela não traz o verdadeiro valor de todas as coisas, apenas seu valor material, custo, oferta, demanda etc. Ver tudo a partir de um viés econômico acaba por perverter inclusive o próprio valor do trabalho, mas essa discussão cabe em outro tópico.

O que pode ser dito neste momento é que se analisarmos de maneira mais ampla as diferenças de um anarco-capitalista para um socialista - que ele diz combater - veremos que elas não passam de meras circunstancialidades. Este traz que o Capitalista é o grande vilão do mundo ao passo que aquele atribui ao Estado a origem das mazelas da sociedade. Isso explica o fato de que, bem antes dos anarco-capitalistas juvenis atuais começarem a alardear que "imposto é um roubo", Pierre Proudhon, no início do século XIX, já havia cunhado a máxima de que a "propriedade é um roubo". Entretanto, tanto um como outro acreditam piamente que da anarquia pode se gerar uma ordem.

O anarquista individualista Henry David Thoreau, em seu ensaio Desobediência Civil, põe a seguinte questão: "A grande maioria dos homens serve ao Estado desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos [...] Tais homens não merecem respeito maior que um espantalho ou um monte de lama. O valor que possuem é o mesmo dos cavalos ou dos cães". Substitua "Estado" por "Capital". Dá no mesmo. Ambas são doutrinas revolucionárias advindas da mesma matriz de pensamento.

A doutrina Distributista, a qual nos fornece uma visão mais sã dessas questões, acredita que a propriedade é o que dá autonomia ao indivíduo para que ele exerça sua liberdade e obtenha o seu sustento de sua família. Ao mesmo tempo, acredita também ser o Estado o responsável por orientar a sociedade para que as famílias exerçam o seu direito de terem uma propriedade. Portanto, entre o radicalismo e outro, os quais não passam de lagos isolados que não leva a lugar nenhum, a prudência com que a Doutrina Social trata essas questões acaba por ser o rio, com água corrente, que deságua no oceano infinito da verdade.