sexta-feira, 31 de março de 2017

A ditadura porra-louca do CCH de Francisco Sousa

Dia 31 de março marca o início do regime militar no Brasil. A contra-revolução de 1964. Não obstante essa data ser considerada por muitos o início de uma era de cerceamento da liberdades no país, mais de meio século depois, vemos mais uma vez casos de censura e autoritarismo sendo praticados por servidores públicos. Na tarde de ontem, o diretor do Centro de Ciências Humanas da UFMA Francisco de Jesus Silva de Sousa proibiu a apresentação de uma palestra com uma temática anti-marxista. O tema da palestra era "Os contumazes idólatras do fracasso: porque o marxismo, embora desastroso, ainda é sedutor?". Segundo os organizadores do evento, o Grupo de Estudos Liberais Bem-TeVis, o motivo principal alegado pelo diretor do CHH/UFMA para a proibição foi que ele não gostava do palestrante.

É óbvio que o diretor de um centro de universidade federal detém o poder de conceder ou não as instalações físicas do prédio que administra, mas quando impede que um evento acadêmico aconteça, ele deve ter um bom motivo para isso, e os critérios que devem embasar sua decisão são critérios que dizem respeito estritamente a instituição que representa, não exclusivamente a suas convicções pessoais e gostos.

Francisco de Jesus Silva Sousa é professor do departamento de Psicologia, no qual já ministrou disciplinas de "Psicologia Social" e "Prática Profissional e Ética". Foi empossado como diretor do CCH/UFMA em abril do ano passado. Em agosto - alguns devem se lembrar, pois um rapaz morreu nesse evento - ocorreu no centro que administra, com sua permissão ou omissão, um evento chamado I Encontro da Juventude Porra-Louca. O encontro era uma retaliação ao I Encontro da Juventude Conservadora da UFMA, que ocorria na mesma data, no auditório central da universidade. Em sua programação, o evento autodenominado "porra-louca" teve apresentações artísticas com nudez, apologia a drogas, sexo livre, entre outras coisas. O tema era "Conservadorismo de Cu é Rola: se joga pintosa".


Embora soe caricata, a mensagem transmitida pelo evento porra-louca é nitidamente uma mensagem de ódio e autoritarismo. Se conservadorismo de cu é rola, podemos considerar que Cristianismo de cu é rola, Tradição de cu é rola e defesa de valores de cu é rola, e nós, porra-loucas, não permitimos nada disso aqui. É esse tipo de "evento científico" que o diretor Francisco de Jesus Silva Sousa aprova nas instalações de seu centro enquanto veta uma palestra de crítica ã mentalidade revolucionária marxista.

Boa parcela dos estudantes da UFMA não discute mais idéias, não lida mais com o contraditório, ofendem-se com argumentos contrários, rechaçam aquilo que nega o seu modo de ver o mundo. Trocaram conhecimento por ideologia. Argumentos, por opiniões. Pesquisa, por militância. Isso é grave, pois compromete a carreira acadêmica dessas pessoas, alienando-as apenas à ação política e à revolução cultural. São rios de dinheiro público investidos ali todos os anos, para ao fim realizarem um evento que afirma que a postura política das famílias, que pagam seus impostos e sustentam as universidades, e boa parte da população brasileira, que é conservadora, é cu e rola.

Na Idade Média, um dos métodos escolásticos de aprendizagem era o disputatio. O professor medieval apresentava aos alunos um problema, depois apresentava uma tese para resolvê-lo, posteriormente apresentava proposições que contraditavam a tese, depois algumas que a confirmavam. Após a exposição, fazia-se a análise das premissas de todos os argumentos favoráveis e contrários, para a partir da análise de todas as alternativas se tirar uma conclusão. Nas universidades medievais havia espaço para o debate de conhecimento, no Centro de Ciências Humanas da UFMA, não. Lá só há espaço para a militância tosca, chula, histérica e porra-louca.

quarta-feira, 29 de março de 2017

O "close errado" da Amazon

Nos últimos tempos, a sociedade tem presenciado acalorados debates no campo da política. E não só no Brasil como em vários outros países, em muitos casos, o debate político nacional foi levado para o lado pessoal. Filhos foram expulsos de casa, casamentos acabaram, amizades foram desfeitas no Facebook. De uma maneira ou de outra, sempre levamos as discussões políticas para o campo pessoal, principalmente quando os ânimos estão mais exaltados. Isso é inevitável. A forma como vemos a ação política é uma representação da forma como vemos o mundo.

Assim como para uma pessoa assumir firmemente uma posição pode ter consequências desagradáveis, uma empresa assumir um discurso político-ideológico também é bastante arriscado. Esse foi o risco assumido pela multinacional Amazon, que na última segunda-feira 29, lançou um vídeo da campanha "Kindle #MovidosPorHistórias". O filme é uma crítica a campanha do prefeito de São Paulo João Dória Jr que promoveu a pintura de edificações do patrimônio público danificadas pelas pichações. A Amazon acusa-o de deixar a cidade cinza, sem cor, o que ela tentou cobrir com "histórias". Você pode assisti-lo na íntegra abaixo.


A defesa das pichações e a crítica a postura de Dória é por si só uma posição ideológica. A esquerda revolucionária faz apologia ao que chamam de "intervenções urbanas" porque as pichações e até mesmo os grafites são intervenções artísticas que representam a áurea da modernidade, a contestação, a insubordinação às regras, aos padrões estéticos, às convenções, visão totalmente contrária às posturas do peesedebista. A Amazon foi ousada por assumir um partido no debate político e pagou caro por isso, pois a resposta de Dória foi devastadora.


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Com a provocação do prefeito, várias empresas o procuraram para atender ao apelo pela doação de itens de educação ao município de São Paulo. Isso soterrou ainda mais a campanha suicida da Amazon.

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Até o momento desta publicação, o vídeo da Amazon no YouTube tinha cerca de mil curtidas, mais de 6 mil desaprovações e inúmeros comentários negativos. Enquanto os vídeos de Dória estão beirando 100 mil manifestações favoráveis, cada um.

Esse episódio é mais um dos que desmistificam a crença que permeia o imaginário da esquerda e alguns setores da direita de que é nítida a distinção entre grandes capitalistas que operam no livre-mercado e as pautas políticas da esquerda. Pois, ao mesmo tempo que uma empresa transnacional norte-americana assume uma postura ideológica tipicamente revolucionária, atacando um governo liberal, como também assumiram tantas outras, um burocrata usa a parceria com entes privados para conseguir doações à população e não ao seu partido.

sexta-feira, 24 de março de 2017

O que é Distributismo

Artigo de Thomas Stock publicado no site do Expresso Liberdade

Grande parte da História do Ocidente, desde meados do século XIX, foi a história de dois sistemas econômicos adversários. O Manifesto do Partido Comunista de 1848 declarou que “paira um espectro pela Europa”. De fato, paira um espectro não só sobre a Europa, mas sobre todo o mundo. Não se trata só do espectro do Comunismo, mas de sistemas econômicos e sociais rivais, que por várias vezes lançaram a Humanidade em convulsões sociais. Para muitos, estas rivalidades acabaram: o comunismo e o socialismo foram derrotados, logo, só resta ao capitalismo a reinar triunfantemente sobre o mundo. No entanto, não é este o caso. Numa passagem negligenciada da encíclica Centesimus Annus, João Paulo II realça que as escolhas da humanidade não estão limitadas ao capitalismo e ao comunismo. “É inaceitável que a derrota do chamado ‘Socialismo Real’ nos deixe o capitalismo como único modelo de organização econômica” (no. 35). Sendo assim, é obrigação dos católicos olhar com mais atenção para o Distributismo, um sistema econômico defendido por algumas das melhores mentes da Igreja da primeira parte do século XX. Homens como G. K. Chesterton, Hilaire Belloc, pe. Vincent McNabb e muitos outros. Vejamos em que consiste o Distributismo e porque é considerado por muitos cristãos como mais adequado ao pensamento social cristão do que o capitalismo.

Em primeiro lugar, devemos traçar algumas definições dos principais termos que iremos utilizar, especialmente do “capitalismo”. Muito frequentemente esta palavra não é muito bem definida, e cada pessoa lhe dá um significado, bom ou mau, conforme as suas próprias convicções, mas nunca a definindo claramente. Então, o que é o capitalismo? O capitalismo não é a posse privada de propriedade, mesmo que se trate de propriedade produtiva, pois tal tipo de propriedade existe na maior parte do mundo desde tempos muito remotos, enquanto que o aparecimento do capitalismo é normalmente situado na Europa do final da Idade Média. Talvez a melhor maneira de proceder seja escolher a definição de uma autoridade, e depois analisaremos como é que se enquadra com os fatos históricos. Voltemos a encíclica Quadragesimo Anno (1931), do Papa Pio XI, em que o capitalismo é definido, ou caracterizado, como “o sistema econômico em que o trabalho e o capital necessários para a produção são fornecidos por pessoas diferentes” (no. 100). Por outras palavras, no sistema capitalista normalmente trabalha-se para outra pessoa. Alguém, o capitalista, paga a outros, os trabalhadores, para que trabalhem para si, e recebe os lucros do seu empreendimento, isto é, o que sobra depois de pagar o trabalho, as matérias-primas, amortizações, débitos, etc.

Há alguma coisa de errado com o capitalismo, com a separação da posse e do trabalho? Não há nada de errado em ter uma fábrica ou uma quinta e pagar a outros para as trabalharem, desde que lhes pague um salário justo. No entanto, o sistema capitalista é perigoso e insensato. Os seus frutos foram nocivos para a humanidade, e o Sumo Pontífice fez o apelo por mudanças que iriam eliminar, ou pelo menos diminuir, o cerne e o poder do capitalismo.

Deixem-me explicar as afirmações que acabei de fazer. E para o fazer tenho de fazer primeiro um breve desvio para discutir o propósito da atividade econômica. Por que é que Deus deu ao homem a necessidade e a possibilidade de criar e utilizar-se de bens econômicos? A resposta é óbvia: necessitamos desses bens e serviços para levarmos uma vida humana.

A atividade econômica produz bens e serviços para servir toda a humanidade, e qualquer ordenamento econômico deve ser avaliado pela capacidade de preencher este objetivo.

Quando a posse e o trabalho estão separados, tem necessariamente de existir uma classe de homens, os capitalistas, que estão afastados do processo de produção. Os acionistas, por exemplo, não querem saber o que é que a empresa, da qual eles são formalmente os donos, faz ou produz, mas só lhes interessa saber se as ações estão a subir ou quais os dividendos que daí vão retirar. De facto, na bolsa, as ações mudam de mãos milhares de vezes por dia, ou seja, diferentes indivíduos ou entidades, como fundos de pensões, são em parte donos de uma empresa durante alguns minutos ou horas ou dias, e depois vendem-na tornando-se donos de outra entidade qualquer. Naturalmente esta classe de capitalistas passa a encarar o sistema econômico como um mecanismo pelo qual dinheiro, acções, títulos e outros equivalentes podem ser manipulados para enriquecimento pessoal, ao invés de servir a sociedade produzindo bens e serviços. Em resultado disto, têm-se feito fortunas através de takeovers hostis, fusões, encerramento de fábricas, etc., por outras palavras, aproveitam o direito de propriedade privada, não para se envolverem na atividade econômica produtiva, mas para se enriquecerem independentemente dos efeitos nos consumidores e trabalhadores.

Os Papas justificaram a posse privada de bens, mas se analisarmos os motivos e os argumentos por que o fizeram constataremos que a sua lógica está muito longe da capitalista. Examinemos, por exemplo, a famosa passagem da encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII.

Os homens trabalham mais e com mais prontidão quando trabalham naquilo que é seu; mais, aprendem a amar o solo que trabalham com as suas mãos, e lhes provê, não apenas comida para comer, mas uma abundância para ele e para os que lhe são queridos (no. 35).

Mas, o que acontece sob o capitalismo? Os homens aprendem a amar os certificados das ações que lhes renderão dinheiro, em resultado do trabalho de outra pessoa? A justificação que os Papas sempre fizeram da propriedade privada está ligada, pelo menos idealmente, à unidade entre a propriedade e o trabalho. Acrescenta Leão XIII: “A lei, portanto, deve favorecer a propriedade privada, e o seu objectivo deve ser tornar o maior número possível em proprietários” (Rerum Novarum, no. 35), e este ensinamento é repetido por Pio XI na Quadragesimo Anno (no. 59-62, 65), por João XXIII em Mater et Magistra (no. 85-89, 91-93, 111-115), e por João Paulo II em Laborem Exercens (no. 14). Se “o maior número possível… se tornar proprietário”, então a separação fatal entre trabalho e posse, será, se não removida, pelo menos o seu âmbito e influência será diminuída. Já não será a característica fundamental do nosso sistema econômico, mesmo que continue a existir.

E isto leva-nos diretamente ao Distributismo. Pois o Distributismo não é mais do que um sistema econômico em que a propriedade privada está bem distribuída, no qual “o maior número possível” é, de fato, proprietário. A melhor exposição do Distributismo pode provavelmente ser encontrada no livro de Hilaire Belloc, The Restoration of Property (1936). Atente-se ao título, O Restabelecimento da Propriedade. Os distributistas argumentaram que no regime capitalista, a propriedade produtiva é prerrogativa só dos ricos e que isto lhes dava um poder e influência sobre a sociedade muito maior do que aquilo a que têm direito. Embora formalmente todos tenham o direito à propriedade privada, na prática ela está restrita aos poucos.

Outra característica do distributismo, que decorre desta, é que numa economia distributista, haverá limites colocados sobre grande parte da propriedade. Antes que nos acusem de que isto parece socialismo, devemos recordar o comentário de Chesterton (em What’s Wrong With the World, cap. 6), de que a instituição propriedade privada não significa o direito ilimitado à propriedade, tal como a instituição casamento não significa o direito a ter mulheres ilimitadas.

Na Idade Média, as corporações profissionais, exemplo perfeito de instituições católicas, frequentemente limitavam a quantidade de propriedade que cada dono/trabalhador podia ter (por exemplo, limitando o número de empregados), precisamente com o interesse de evitar que alguém expandisse demasiadamente o seu negócio levando outros à falência. Isso porque se a propriedade privada tem um objetivo, como Aristóteles e São Tomás diriam, esse objetivo é assegurar que cada homem e a sua família possam levar uma vida digna, servindo a sociedade. Uma vida digna, e não duas ou três. Se o meu negócio me permite sustentar-me a mim e à minha família, então que direito eu tenho de o expandir a ponto de privar outros do meio de sustentarem a si e às suas famílias? Pois os medievais viam aqueles que se dedicavam à mesma atividade, não como rivais ou competidores, mas como irmãos empenhados no importante trabalho de providenciar ao público bens e serviços necessários. E como irmãos uniam-se nas corporações, tinham padres para rezarem pelos seus mortos, apoiavam as viúvas e órfãos, e de modo geral olhavam pelo bem-estar uns dos outros. Quem é que não é capaz de admitir que esta concepção de sistema econômico é mais adequada à fé cristã do que a ética selvagem do capitalismo?

quinta-feira, 23 de março de 2017

O triunfo da má política

O jornalista Diego Emir, o qual considero um dos mais competentes do estado, noticiou recentemente em seu blog que a TV Difusora e a Difusora FM estão em vias de serem vendidas ao deputado federal Weverton Rocha, que juntamente com outros parceiros comerciais estaria negociando com Edison Lobão Filho a compra da emissora. Há algo de podre no reino do Maranhão. Mesmo com a Operação Lava-Jato servindo de alento ao povo, que pede por mais Justiça no país, as práticas dos políticos e empresários continuam as mesmas. A mesma coisa continua também o desprendimento de políticos de negociarem meios de comunicação estratégicos com políticos que supostamente seriam de grupos adversários. Política é política. Negócios são negócios.

O que transparece à população é que todas essas divergências ideológicas de quatro em quatro anos não passam de uma encenação e que, no fundo, cada um dos que se dizem representantes do povo estão lá apenas para defenderem seus próprios interesses. Em 2014, Lobão Filho era o único concorrente na corrida eleitoral contra a ascensão comunista no estado. Dois anos depois, sua emissora prestava o ridículo papel de ser porta-voz do candidato pedetista Edivaldo Holanda, que teve sua campanha coordenada pelo próprio Weverton Rocha.

O parlamentar esquerdista recentemente protagonizou um dos maiores fiascos da política brasileira ao se colocar como autor da emenda que deturpou as "10 medidas contra a corrupção" propostas pelo Ministério Público Federal. A emenda apresentada pelo deputado, na prática, voltava o projeto das 10 medidas contra o próprio Ministério Público e a Justiça. A atitude foi interpretada como retaliação a ameaça representada pelas operações em curso que ameaçam a cúpula do poder.

Mesmo alegando que promotores e juízes devem responder à Justiça como qualquer cidadão, o deputado é dono de uma vasta lista de processos que correm no STF, por conta de sua imunidade parlamentar, entre os quais processos por dano ao erário, improbidade administrativa, formação de quadrilha, falsidade ideológica e peculato. Muitos deles são de autoria do Ministério Público, alvo da retaliação de Weverton no episódio das 10 medidas.

As polêmicas envolvendo essa figura da política maranhense iniciaram-se quando ainda militava no movimento estudantil. Em 2007, quando era secretário de Juventude e Esporte no governo do socialista Jackson Lago, sofreu a denúncia do recebimento de R$4 milhões do Ministério do Trabalho, chefiado por Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, destinados uma ONG fundada uma parente de primeiro grau de Weverton. Em 2011, ele assumiu uma vaga na Câmara dos Deputados como suplente, após a saída de Carlos Brandão. Seis anos depois, é cogitado para ser o novo proprietário de um dos principais veículos de comunicação do estado.

Se há algo de podre no reino da Dinamarca, a história dirá. O que posso dizer é que a nossa tragédia é muito mais simplória que as peças shakespeareanas.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Considerações sobre a Operação Turing e Eduardo Guimarães

Duas operações da Polícia Federal realizadas na manhã de ontem tiveram como alvo blogueiros. A primeira, no Maranhão, nomeada Operação Turing, conduziu e prendeu preventivamente vários blogueiros de São Luís, suspeitos de usarem informações que corriam em segredo de Justiça para chantagear investigados e lhes fornecer informações privilegiadas. A segunda operação, em São Paulo, conduziu coercitivamente o blogueiro Eduardo Guimarães que havia antecipado em seu blog a informação de que Lula seria alvo de uma operação policial e, com isso, informou diretamente aos investigados a existência de medidas judiciais que corriam sob sigilo.

Os dois casos ocorridos coincidentemente no mesmo dia são paradigmáticos, pois colocam na mesa algumas questões pouco debatidas no meio jornalístico. Se não pouco debatidas, pelo menos debatidas de maneira inconclusiva. A primeira é a reflexão sobre até onde vai a liberdade de informação. Aristóteles dizia que mesmo que um bem seja idêntico tanto para o indivíduo como para a pólis, é mais correto e perfeito resguardar o bem da  pólis, ou seja, da sociedade. Em outras palavras, quando o direito individual de informar fere o interesse público de manter certas investigações em segredo de justiça, é necessário que se prevaleça o interesse público e o dever da Justiça de manter sob sigilo certas investigações, até porque se tratam de investigações a pessoas que agiram contra a lei. Portanto, é necessário que se penalize a pessoa que transmitiu informações confidenciais, já que ninguém tem o direito publicar o que bem entender para tirar vantagem para si ou para outrem.

São direitos constitucionais a liberdade de informação e de expressão. Correto. Mas em praticamente todos os artigos em que esses direitos são expostos, resguardam-se os casos em que a opinião ou informação publicizadas firam a intimidade, a dignidade e os direitos inerentes de outros cidadãos ou da sociedade e do poder público. A liberdade de informação e de expressão não são absolutas.

A segunda questão é: querer rogar a um militante político panfletário, como no caso do Eduardo Guimarães, o ofício de jornalista e, portanto, as prerrogativas da profissão, é desvalorizar a classe jornalística e colocar o direito a informação e a liberdade de expressão não a serviço da verdade, da justiça ou das regras da democracia, mas em favor de um projeto político. Defender o blogueiro com o argumento de que ele é jornalista é avalizar a decisão do STF que derrubou a exigência do diploma para o exercício da profissão e, o que é ainda mais grave, qualificar qualquer tipo de atividade, inclusive a de propaganda ideológica, como jornalismo.

Não foram poucos os jornalistas alinhados ao petismo ou ao Partido Comunista, do qual Guimarães faz parte, que clamaram pelo direito do blogueiro de guardar o sigilo de sua fonte, no caso, da pessoa que lhe passou uma informação que corria sob segredo de justiça, que ele levou a público. Repito. É contra-senso exigir a valorização da profissão jornalística e ao mesmo tempo defender que qualquer pessoa que escreva em um blog, mesmo que seja um blog de pura propaganda partidária, também seja considerada plenamente um jornalista.

Logo, vê-se que os profissionais e veículos de comunicação que saem em defesa de um militante, atribuindo a ele a posição de "jornalista" e exigindo que seja respeitado o seu direito de sigilo da fonte não estão preocupados com a verdade, com a valorização do jornalismo nem mesmo os parâmetros éticos da profissão. Eles já colocaram a causa comunista e a defesa de um chefe de organização criminosa como Lula acima de tudo isso.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Desmascarando um "feministo"

Dias atrás, o jornalista José Linhares Júnior comentava em seu programa na rádio Rádio Capital a respeito do Dia Internacional da Mulher e do feminismo quando recebeu uma mensagem inesperada do blogueiro Marco Aurélio D`Eça, que, além de xingamentos a Linhares, afirmava que as mulheres não reivindicam por “igualdade” e sim por “equidade”, o que, segundo ele, são coisas diferentes. O jogo de palavras do blogueiro não faz sentido algum, mas essa confusão é comum na cabeça de pessoas que opinam sem propriedade do assunto.

“Igualdade” entre homens e mulheres seria não haver entre os sexos nenhuma diferença quantitativa, qualitativa ou valorativa, em termos de salários, tratamento jurídico ou status social. Isso é obviamente impossível, dadas as diferenças essenciais entre homens e mulheres. “Equidade” seria a busca pelo tratamento justo, dar tanto a homens quanto a mulheres o que é seu por direito, respeitando o princípio da isonomia, que preza pelo tratamento igual a todos os cidadãos. No discurso, tudo parece fazer sentido. Porém, por trás deste jogo de palavras, esconde-se uma realidade um tanto contraditória no que se refere aos direitos femininos.

Embora Karl Marx não tenha desenvolvido muito sobre o tema, o feminismo surgiu enquanto força política, no fim do século XIX,  a partir das bases de sua filosofia. Enquanto o pensador alemão afirmava que as relações na sociedade são ditadas pela luta de classes entre burgueses e proletários, as feministas transferiam esse conflito para a luta entre homens e mulheres. A mulher, portanto, para se voltar contra a dominação masculina deveria despertar em si uma “consciência de classe”. Para elas, numa relação familiar, o homem se põe como um opressor que subjuga a mulher através da força. A mulher deve se libertar disso para lutar por igualdade nas relações sociais, independente de sexo. Uma sociedade sem classes, segundo as feministas, deve ser uma sociedade sem distinções entre os sexos. Muitas delas acreditam ainda que os conceitos de matrimônio e a família são “superestruturas” (para usar um conceito marxista), que prendem a mulher na relação de opressão, e que devem por isso serem superados.

Na prática, a coisa não é bem assim. No início da industrialização, as mulheres ocupavam mais postos de trabalho que os homens, já que a principal atividade econômica que impulsionou o progresso econômico inglês no fim do século XVIII foi a indústria têxtil. O historiador marxista Eric Hobsbawm afirma que nos anos de 1830, os homens ocupavam apenas um quarto dos postos de trabalho disponíveis na indústria, mais da metade dos trabalhadores eram mulheres e o restante dos postos eram ocupados por crianças e adolescentes. Diferentemente do que calculavam as feministas ligadas ao socialismo, o feminismo acabou servindo ao sistema. O filósofo inglês G. K. Chesterton diz que o feminismo trouxe a idéia confusa de que as mulheres são livres quando servem aos seus empregadores, mas são escravas quando trabalham em seu lar.

A própria lógica do capital fez com que a suposta diferença cultural entre homens e mulheres se diluísse aos poucos, já que era proveitoso que mulheres também contribuíssem para a produção com sua mão-de-obra e também se tornassem consumidoras. Quem perdeu com tudo isso foi a estrutura familiar, que com o passar do tempo passou a ser um elemento secundário na vida das pessoas. A criação de filhos passou a ser concebida a partir do ponto de vista dos custos recorrentes para o seu sustento e dos benefícios econômicos que eles poderiam trazer.

No Brasil, não faz sentido falar de igualdade ou equidade entre homens e mulheres, já que as mulheres têm dezenas de direitos a mais que os homens. Somente direitos trabalhistas, são mais de dez. Entre eles um que se destaca é o que impõe que, embora a mulher, estatisticamente, viva mais tempo que o homem, ela tenha o direito de se aposentar com menos tempo de serviço. Em prol da “equidade” defendida por Marco D’Eça, muitos direitos oferecidos às mulheres, as desfavorecem competitivamente no mercado de trabalho, já que alguns empregadores, ao avaliarem a diferença de custos de se empregar uma mulher, acabam optando por empregar um homem. Isso seria justo?

Em alguns casos, mulheres têm privilégios em processos contra homens, inclusive nos que se referem à guarda dos filhos em caso de divórcio. Crimes cometidos contra mulheres também sofrem penas mais graves, a partir de uma lei aprovada por Dilma Rousseff em 2015.


Portanto, esse argumento da equidade defendido pelo egrégio comentarista político e supostamente defendido pelas mulheres e movimentos feministas não passa de ideologia. Quando os discursos são postos à luz dos fatos, vemos que há muito mais que se avaliar para que se preserve de fato a verdade e a justiça.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Por um dia sem feminismo

Como já era de se esperar, o Dia Internacional da Mulher foi marcado pelo show de horrores dos protestos de grupos feministas, que aproveitam a data para reivindicar por "direitos" para as mulheres. A data, que deveria ser utilizada para exaltar as virtudes femininas e as conquistas das mulheres no Brasil e no mundo, acaba virando, com ampla repercussão da mídia, palanque para as mais indecorosas reivindicações, como a luta contra o "machismo", contra a família, contra a religião cristã e a favor do aborto. Essas manifestações tornam mais clara a minha convicção de que a crise que o mundo vive, em especial o Brasil, é de ordem não só moral, como também espiritual e estética.

É primordial, quando se levanta certas questões, a precisão na definição dos termos. O "machismo" denunciado por essas manifestações feministas geralmente não se trata de nenhuma exploração institucionalizada das mulheres ou casos de violência explícitos, mas de vezes casos pontuais - que devem ser combatidos, logicamente, mas - que não devem ser o foco da questão. Por isso, a palavra "machismo" vem sendo cada vez mais desgastada até o ponto de sua exaustiva utilização levar a sua nulidade. Quando uma coisa é tudo, ela passa necessariamente a não ser nada.

Portanto, o "machismo" denunciado pelas por esses grupos, como o da manifestação que aconteceu no Rio, ganha contornos meramente simbólicos. Para elas, a simples manifestação do homem de sua masculinidade seria uma expressão do seu machismo. Elas não escondem o autoritarismo de seu discurso quando defendem que o homem não deve ter sequer o direito de ser homem. Essa mentalidade autoritária é apenas um dos sintomas da degradação desses grupos, que acham muito mais importante falar contra o governo Temer e defender o assassinato de crianças do que exaltar a virtude da mulher e lidar com os verdadeiros problemas enfrentados pelas mulheres hoje, como violência generalizada, desemprego, gravidez precoce, dissolução da estrutura familiar, drogas, entre muitos outros.

No final das contas, esses grupos acabam por se demonstrarem soldados na guerra ideológica que servem a diversos fins políticos e passam longe de defender os reais interesses das mulheres,

terça-feira, 7 de março de 2017

PSOL e a Cultura da Morte

O Partido Socialismo e Liberdade - PSOL protocolou hoje uma ação no STF que defende que a criminalização do aborto no Brasil viola a dignidade e a cidadania das mulheres. Sim, isso mesmo: para eles, proibir o aborto viola direitos das mulheres. A ação trata-se de uma "Arguição por Descumprimento de Preceito Fundamental". Os preceitos fundamentais descumpridos pelo Código Penal brasileiro, que criminaliza o aborto, seriam o da cidadania, dignidade, igualdade, liberdade e, pasmem, o direito à vida. A ação é assinada pela ex-deputada Luciana Genro, por Luciana Boiteux, professora do Departamento de Direito da UFRJ e por Gabriela Rondon e Sinara Gumieri, advogadas e pesquisadoras da Anis – Instituto de Bioética.

É incrível a capacidade de certos setores da esquerda de retorcerem a linguagem e própria lógica para defenderem as mais desumanas teses. Para as vestais da morte do PSOL, trata-se de um direito da mulher decidir sobre a vida de outro ser humano, que está sendo gerado em seu ventre. A ação não impõe nenhuma restrição a prática do aborto. Afirma apenas que o infanticídio deve ser feito nos 3 primeiros meses de gestação, independente de qual seja a motivação que leve a mulher a assassinar seu filho.

Não há como não perceber a áurea satânica dessa ideologia, mas este tipo de pensamento tem se alastrado em diversos meios, através da mídia e da academia. Não há nenhum argumento filosófico ou científico sério que justifique que o ser gerado no ventre materno não é uma vida. Os defensores da cultura da morte baseiam-se apenas em crendices - digo com todas as letras, religiosa - para defender que uma vida vale menos que a "dignidade" de outra.

A religião dos ideólogos do PSOL é a religião da morte. São pessoas profundamente ignorantes, que não nutrem nenhum valor pela vida e pela dignidade humana. Pessoas obscurantistas, que querem levar o Brasil para a Idade das Trevas, onde, como em outros países, milhares de crianças são, com o incentivo do governo, descartadas como lixo.

Flávio Dino é Comunista?

A aproximação das eleições estaduais tem acirrado alguns discursos dentro da política maranhense. Recentemente, para fazer críticas a Flávio Dino, o senador Roberto Rocha parafraseou uma citação do diplomata José Osvaldo de Meira Penna, que diz: “Os marxistas inteligentes são patifes. Os marxistas honestos são burros. E os inteligentes e honestos nunca são marxistas”. Alguns comentaristas de política local reproduziram a frase sem contextualizá-la e outros, mais alinhados ao governador, satirizaram-na afirmando que o “comunismo” já foi superado há décadas e que Flávio Dino não poderia ser considerado um comunista. Mas isso faz sentido? Dino é mesmo comunista?

A resposta mais óbvia é sim. Ele está em um partido comunista e se diz um. Mas para compreendermos isso com precisão, é necessário que se faça uma reflexão mais profunda sobre o assunto. Ao longo da história, o comunismo sofreu por diversas transformações e reinventou-se à medida que se modificaram as circunstâncias políticas. Dizer que hoje não pode ser considerado um comunista alguém que não prega abertamente imediata apropriação dos meios de produção e o fim da classe burguesa é ignorar a sucessão de mudanças ocorridas dentro da própria classe revolucionária.

Apesar de não pregar o mesmo discurso de 2 séculos atrás, a ideologia socialista ainda preserva alguns fundamentos de outros tempos. O primeiro é o pensamento dialético. A narrativa comunista se sustenta do conflito. Se para Lênin, a ditadura do proletariado é a guerra mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, para Dino, a luta implacável a ser travada é contra um outro perigoso inimigo, no seu caso, o “sarneysmo”.

A dicotomia feita em torno de Sarney sempre foi uma arma discursiva forte. Os comunistas sempre alimentaram e fantasiaram essa narrativa de contraposição com os antigos oligarcas para se beneficiarem com o voto da população descontente com os antigos governos, principalmente a classe média. É o discurso do “nós contra eles”, que na prática, não apresenta muitas distinções.

A centralização das decisões, o favorecimento do partido, o aumento do estamento burocrático, aumento da dívida pública, a penalização da classe empresarial com aumento de impostos, tudo isso é prática recorrente em governos anti-liberais que tem se repetido no governo Dino.

A perseguição externa e interna, até entre os próprios aliados, também é um método usado desde as primeiras revoluções comunistas da Europa do século XIX, e se tornaram recorrentes no século XX, o mais conhecido foi o Grande Expurgo de Stalin, onde ele, para se manter hegemonicamente no poder, eliminou mais de 130 dirigentes do Partido Comunista da URSS na década de 1930. No sistema democrático, o “expurgo” se dá através de perseguição política e da retaliação. Alguns membros de partidos aliados do governo sentem na pele essa prática e já denunciam isso. 

segunda-feira, 6 de março de 2017

O ocaso dos "intelectuais"

Nem a soltura do goleiro Bruno, decretada na semana passada, deveria ter sido considerada tão estarrecedora e revoltante quanto a divulgação do manifesto assinado por mais de 400 intelectuais pedindo a candidatura de Lula nas próximas eleições presidenciais. Chega a ser uma experiência melancólica ler o "manifesto". Além de ser um atestado de subserviência ideológica, ele ainda apresenta em sua redação um erro grotesco de concordância gramatical. O documento é um falseamento da realidade do começo ao fim. Um falso manifesto, com falsos argumentos, assinado por falsos intelectuais.

A desfaçatez desses homens e mulheres é infinita! Quem em sã consciência assinaria um suposto manifesto para pedir que uma pessoa acusada de corrupção simplesmente cogite a possibilidade de se candidatar às eleições presidenciais?

Esse manifesto é um triste retrato do nível de insensatez a que chegou nossa dita "classe pensante", que hoje já não pensa, só milita. Augusto Nunes apontou com precisão a motivação dos "intelectuais": continuar sustentando a narrativa de que Lula é um perseguido político.

Em um momento em que o Brasil passa por um perfeito estado de anomia, onde as instituições não são mais respeitadas, o povo não se vê representado pelos seus governantes, a degradação moral impera e as conturbações sociais chegam a um paroxismo inimaginável, aqueles que deveriam estar pensando o país e propondo soluções, estão mais preocupado em fazer parte de um teatro grotesco de modo tentar livrar a cara de um chefe de organização criminosa.

sábado, 4 de março de 2017

Só quem julga é Deus

Segundo um levantamento do Datafolha de 2016 (não coloco minha mão no fogo), seis em cada dez brasileiros acreditam na opinião de que "bandido bom é bandido morto". O número é elevado e choca os adeptos da tese que defende que um bandido, por pior que seja sua ficha criminal, não pode receber a "pena capital" das mãos da população ou da força policial no exercício da sua função. Para eles, o criminoso seria um produto do meio em que vive, que recorre a criminalidade por não ter em vista outro meio de garantir sua subsistência. Os defensores de tal opinião acreditam ainda que seria até anti-cristão "julgar" uma pessoa pelos seus atos dessa forma. Mas o que realmente diz o Cristianismo sobre o assunto?

O doctor gratiae da Igreja Santo Agostinho, no livro I de sua grande obra Cidade de Deus, afirma o seguinte: "Ora, não é moralmente homicida quem deve à autoridade o encargo de matar, pois não passa de instrumento, como a espada com que fere. Desse modo, não infringiu o preceito quem, por ordem de Deus, faz a guerra ou, no exercício do poder público e segundo as leis, quer dizer, segundo a vontade da razão mais justa, puniu de morte criminosos". Isso, obviamente, não quer dizer que "bandido bom é bandido morto", mas também não quer dizer que "bandido bom é bandido vivo".

O santo padre atesta, segundo a doutrina, que não incorre em homicídio um policial que, no alto de sua função, executa um criminoso "segundo a vontade da razão mais justa". Isso implica em dizer que, por defender sua vida ou a vida de tantos outros cidadãos de bem dentro da sociedade, não se pode imputar um policial que executa um criminoso. Pois o criminoso, por livre escolha, optou pela vida no crime e da injustiça. Caso tenha sido morto, cabe a Deus julgá-lo.

Outra obra de Santo Agostinho que trata sobre o "homicídio" é Livre Arbítro. Nesta obra, o santo conclui que as culpas advindas pelo homicídio são as movidas pelas paixões humanas. Mesmo assim, não se pode dizer, por exemplo, que um escravo que matou seu dono por ser atormentado por ele o matou segundo a Justiça. Pois ninguém, além de Deus, pode julgar se ele não o teria matado para que ele próprio pudesse exercer suas paixões. Para Santo Agostinho, só não pode ser imputado alguém que matou em sua própria defesa ou na defesa de outrem e um policial no exercício do seu dever legal.

Na mesma obra, Santo Agostinho explica a Evódio que incorrer ao crime (ou ao pecado) é uma forma de abuso do livre-arbítrio. Pois nada força a razão a submeter-se às paixões. "Portanto, não há nenhuma outra realidade que torne a mente cúmplice da paixão a não ser a própria vontade e o livre-arbítrio", conclui o doutor. Isso nos faz perceber que um bandido que escolhe o caminho do mal não o faz por não ter escolha, mas por estar sendo movido por sua própria vontade, o que desmonta a tese determinista de que ele seria necessariamente fruto do meio corrompido e sem opções em que vive.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Flávio Dino e o problema do indiferentismo religioso

Uma foto do atual governador do Maranhão Flávio Dino recebendo uma benção de pastores protestantes ganhou as redes sociais nesta semana. Como mostrou o Blog do Linhares, as críticas da população, principalmente dos mais religiosos, não foram poucas. Considero que algumas das críticas foram infantis, como a de que ele não poderia ir a um culto depois ter estado dias atrás em festas de carnaval. Mas outras foram bastante pertinentes, pois demonstram a incoerência do comunista quando o assunto é Fé.

A benção aconteceu no evento "Ora São Luís", na última quarta-feira 01, na praça Maria Aragão. Na foto, ao lado do governador, está o prefeito de São Luís Edivaldo Holanda Júnior. Já escrevi aqui no blog sobre algumas imposturas de Flávio Dino ao falar publicamente de Bíblia e de religião. Ele não mede esforços em querer atrelar o Cristianismo a sua ideologia política. Dino chegou inclusive ao cúmulo de publicar em suas redes sociais uma imagem do papa junto ao símbolo do seu partido. Ele tenta conciliar o inconciliável.

Não conheço dentro do Protestantismo teólogos que condenem o Comunismo de maneira direta, mas no atual cenário político brasileiro, parlamentares que defendem valores cristãos, a maioria deles evangélicos, vêm sendo sistematicamente perseguidos por militantes de partidos de extrema-esquerda, defensores da Ideologia de Gênero, aborto, casamento gay e outras pautas profundamente anti-cristãs, as quais são promovidas por deputados e senadores do partido de Flávio Dino dentro do Congresso Nacional.

Apesar de não ter conhecimento de condenações ao Comunismo feitas por protestantes, não faltam dentro da Igreja Católica documentos oficiais do Vaticano condenando a ideologia professada pelo governador. Leão XIII chama o comunismo de "pestilência mortal [para a alma]" e "horrendo flagelo a civilização cristã". Em sua famosa encíclica Rerum Novarum, o venerável pontífice afirma que o socialismo promove "funestas consequências, a perturbação em todas as classe das sociedades, uma odiosa servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias". Bento XVI, João Paulo II, Paulo VI, nenhum dos papas mais recentes se furtou de também condenar o Comunismo em todos os seus aspectos, desde o radical ao mais moderado. O ápice dessa condenação veio de Pio XII, que em 1949 decretou excomunhão automática a todo cristão que se filiasse a qualquer entidade ligada ao Comunismo ou Socialismo. Decreto que foi confirmado novamente pelo papa João XXIII, posteriormente.

Portanto, o maior problema de um governante comunista se ajoelhar para receber uma benção é a de que ele está promovendo em seu povo o indiferentismo religioso. Ele transmite o sentimento de que tudo aquilo que professa o Cristianismo é mera convenção e tem um caráter subjetivo. Isso levado a sociedade promove a cada vez mais propagada degradação da Fé, onde ninguém mais considera o valor da verdadeira doutrina, por não entender a raiz filosófica e teológica por trás dela. Erro cometido inclusive por lideranças dentro da Igreja, mas severamente repreendidos pelo Magistério.

O marxismo é anti-cristão, entre outras coisas, por ser em sua essência filosófica uma doutrina materialista, racionalista, que promove na sociedade toda espécie de vício, volta-se contra a família, estimula a laicização continua do estado, elimina a influência da Igreja nas camadas sociais, atenta contra a propriedade privada, promove o inchaço do estado, que passa a interferir em todos os aspectos da vida dos cidadãos e acredita na construção de um "reino dos céus" na Terra, é o que o filósofo Eric Voegelin chama de "imanentização do eschaton". Acreditar que isso pode se conciliar de alguma forma com a Fé em Jesus Cristo é o suprassumo do indiferentismo religioso, pois ao ser entendido teologicamente, o Comunismo também é uma religião. Uma religião política anti-cristã.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Uma definição cristã de trabalho

A resposta automática que vem à cabeça de qualquer brasileiro ao ser perguntado o que ele faria se ganhasse um prêmio milionário é, em quase 100% dos casos, deixar de trabalhar. Pode confessar, você também pensou isso. Essa forma negativa como se percebe trabalho hoje se deve a dois principais fatores: trabalhar numa sociedade de consumo sempre ávida por resultados é algo maçante e, muitas das vezes massacrante; e as pessoas perderam completamente a percepção do verdadeiro sentido do trabalho.

O trabalho, antes de mais nada, é um ato definido desde o princípio da criação. Ao criar o mundo e todas as coisa que há nele, Deus deu ao homem um objetivo específico: “cultivar e guardar” as demais coisas que havia criado. Isso está no livro de Gênesis. Deus deu ao homem a soberania sobre as demais coisas criadas. Partiu daí uma primeira hierarquização e ordenação da criação. Desde o princípio do mundo, o homem tinha um trabalho, um ofício. O próprio ato da criação é colocado em Gênesis como um “trabalho”. Deus fez tudo que havia de ser feito em seis dias e ao sétimo dia descansou de seu trabalho.

O Criador nos fez a sua imagem e semelhança e, como tais, somos dotados da capacidade de criar e transformar tudo, diante das coisas que Ele próprio criou e ordenou. Portanto, o trabalho pode ser entendido originalmente como um ato criador, um processo de produção e transformação das coisas em prol da sua manutenção própria e de todo o consórcio humano.

A Doutrina Social da Igreja distingue o trabalho como dotado de dois caráteres, o individual e o social, os quais se relacionam em 3 dimensões. A primeira, seria a dimensão pessoal e familiar, que põe o trabalho como um instrumento de sustento próprio e da família. Sem um meio de sustento, fica inviável a constituição das famílias e a obtenção da propriedade, portanto, é fundamental para a sociedade que se ofereça condições dignas de trabalho para os cidadãos. Ademais, é através do trabalho que o homem pode desenvolver primordialmente relações interpessoais com as quais pode exercer as práticas da virtude na convivência com o próximo.

A segunda dimensão trata do trabalho como ato que se relaciona com toda a sociedade. Quem é funcionário, presta sua mão de obra para uma empresa, que por sua vez se relaciona com clientes, fornecedores, governo, investidores etc. O trabalho deve, portanto, visar não só um bem para si como para aqueles aos quais ele se relaciona diretamente. A partir daí chegamos a terceira dimensão, que é a mais ampla de todas, a qual se refere ao Bem Comum. O trabalho, além de fornecer benefícios a sociedade em geral, deve permitir que o trabalhador preste um bom serviço ou produza coisas que beneficiem a todos.

É necessário também que ele receba por isso um pagamento justo, que o permita não só atender suas necessidades básicas como também poupar algo do seu ganho. Só assim ele pode garantir o direito de ter sua propriedade.

A modernização dos meios de produção, das relações comerciais e o recrudescimento da sociedade de consumo nos países da Europa, Ásia e América do Norte acabou afetando fortemente o Brasil. Fomos inseridos numa lógica em que o trabalho acaba por muitas das vezes perder este sentido original. A percepção das diversas dimensões do trabalho tornou-se muito difusa e abstrata. A mentalidade individualista e materialista nos relegou uma compreensão de que o trabalho tem como objetivo ou apenas o sustento ou a obtenção de riqueza.

O sentido social do trabalho não está arraigando no sentimento da grande maioria das pessoas. O exercício de um ofício profissional e feito com o sentido exclusivamente monetário. Por isso, muitas das vezes, ele acaba por se tornar maçante, sem significado, automatizado, mesmo quando se ganha altos salários. Pois o salário e o lazer são compensações para o trabalho, que é tido como um “sacrifício”. Nesta sociedade, o trabalho não tem uma função maior, um sentido espiritual nem mesmo uma perspectiva voltada ao Bem Comum, é apenas determinado do ponto de vista dos custos e benefícios. O filósofo inglês Ernest Fritz Schumacher diz que partir daí o trabalho perde todo o significado, e faz com que o maior desejo do empregador seja produzir sem ter o custo dos empregados e do empregado, ter renda sem ter que trabalhar.

Quando aquilo do qual você tira seu sustento é visto como um sacrifício que deve ser feito para que se atinja um determinado grau de estabilidade financeira ou até mesmo a riqueza, o acúmulo de bens acaba por ser a finalidade máxima do ser humano. Tudo na vida das pessoas passa a girar em torno do dinheiro e isso afeta toda a sociedade. Incentiva-se a mentalidade de cobiça, de busca pela riqueza, da posse de bens, o que desencadeia o egoísmo, a inveja, a vaidade e toda a sorte de vícios.

A própria necessidade de bens e produtos que a propaganda mercadológica impõe artificialmente na sociedade através da mídia estimula ainda mais esse fenômeno.

Fica fácil perceber com a apresentação desses fatores o quanto essa lógica perversa acaba por promover a degradação moral das famílias e da sociedade. Ao longo da História, em contraposição a isso, apresentou-se diversas alternativas, entre elas, o engodo do Marxismo. Os marxistas dos séculos passados e os mais atuais identificaram vários desses problemas, mas apresentaram soluções que estimulam da mesma forma a inveja, a corrupção moral, a fragmentação da sociedade, a destituição da família, voltam-se contra a propriedade privada e o pior: invariavelmente descambaram para o totalitarismo.