domingo, 2 de abril de 2017

Reféns do estado

Muitas vezes, a propaganda utiliza-se de recursos da redação jornalística para dar um caráter de confiabilidade a mensagem que quer transmitir. O objetivo é dar ao público a impressão de que se está passando uma informação confiável e não o anúncio de um produto ou uma idéia. É uma propaganda disfarçada de notícia. Até aí? tudo bem. O problema é quando jornalismo começa a usar artifícios da publicidade para transmitir uma informação que deveria ser, pelo menos na aparência, neutra e isenta.

A edição de hoje do jornal O Imparcial demonstra um pouco desse problema. O mais antigo jornal impresso do Maranhão, com quase 100 anos de fundação, emprestou sua edição de domingo para publicar na capa uma chamada que em nada se difere das peças publicitárias oficiais do governo estadual. O Imparcial se rebaixa ao fazer isso. O jornalismo maranhense se apequena cada vez mais.

O marxista italiano Antônio Gramci, que inspirou grande parte da esquerda brasileira a partir da década de 60, dizia que os revolucionários deveriam, de todas as formas, denegrir e boicotar os jornais da classe dominante e criar veículos de comunicação que falassem para o povo e para a classe trabalhadora de modo a servir ao projeto político da revolução. Essa foi justamente a estratégia usada pelos socialistas maranhenses desde a época de Jackson Lago, que destilava intensas críticas ao Sistema Mirante, controlado pelos Sarney, mas tinha outros veículos que serviam a seu propósito. Ao finalmente superar a "oligarquia" e assumir o governo, o comunista Flávio Dino lança mão exatamente das mesmas práticas que antes condenava: submete a imprensa livre a um projeto de poder.

Situações assim devem ser encaradas com a devida preocupação, porque nunca é um caso isolado. A estratégia gramsciana adotada pela esquerda brasileira envolve a criação de uma rede de influência com formadores de opinião na Comunicação, na Educação e em várias outras áreas, de modo a se criar um ambiente cultural que sustente de forma perene o projeto político revolucionário.

O próprio Imparcial publicou ontem em suas redes sociais uma foto da visita do governador maranhense a Lula, em São Paulo. Nos comentários, inúmeras críticas dos leitores ao fato de Flávio Dino reunir-se com um dos presidentes mais corruptos da história, apontado pelo Ministério Público chefe de organização criminosa.

Os poucos leitores que se prestavam a defender Dino limitavam-se a argumentar que é melhor ele que os Sarney. Apesar das práticas políticas se mostrarem as mesmas, o discurso é sempre o do nós, da classe revolucionária, contra eles, da classe oligárquica dominante. Discurso repercutido indiscriminadamente pela imprensa. Mas até quando?

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